ENTRE A EMOÇÃO E A CONTA

Redação

setembro 27, 2026

Salvar uma instituição pode ser necessário. Mas quem escolhe aqueles que pagarão pela sua sobrevivência?

Tenho grande admiração pelo presidente Pedrinho. Pelo ex-atleta, pela identificação com o Vasco e pela coragem de assumir a presidência de uma instituição que ama em um dos períodos mais complexos de sua história. Mas existe outro lado da mesa que conheço pessoalmente.

Sou credor do Vasco. E isso muda o lugar de onde observo algumas dessas decisões.

Assisti à entrevista do Pedrinho após mais um passo importante no processo de venda da SAF. Vi um presidente emocionado, falando de resistência, luta e resiliência depois de um período extremamente difícil.

Foi impactante. Porque é impossível ignorar sua relação com o Vasco. O menino que cresceu no clube, tornou-se jogador, campeão, ídolo e, muitos anos depois, presidente da instituição que ajudou a construir sua própria história.

Como alguém que também viveu a formação e chegou ao futebol profissional dentro de uma instituição com a qual construí, desde muito jovem, uma relação que vai além do futebol, consigo compreender o tamanho desse vínculo e o que uma trajetória como essa representa. Mas decisões difíceis têm consequências. E, quase sempre, alguém paga por elas.

A recuperação judicial é um instrumento previsto em lei e não é exclusividade do futebol. Existe para permitir que instituições em dificuldades reorganizem suas dívidas e encontrem condições para continuar existindo.

Como profissional de negócios, compreendo a lógica. Como credor, conheço a consequência. Porque, do outro lado da dívida, sempre existe alguém. Uma empresa que prestou um serviço. Um profissional que trabalhou. Uma família que fez seus planos contando com aquele recurso.

Quando as condições mudam, o impacto não desaparece. Ele apenas muda de lado. E talvez seja esse um ponto que ainda discutimos pouco no futebol brasileiro.

Falamos muito sobre salvar clubes, mas pouco sobre quem participa involuntariamente desse salvamento. O credor, muitas vezes, apenas cumpriu sua parte em uma relação comercial e depois passa a fazer parte da solução financeira de uma crise que não criou.

Isso não transforma a recuperação judicial em algo ilegítimo. Em determinadas circunstâncias, pode ser uma alternativa para evitar consequências ainda mais graves. Mas existe uma diferença importante:

A legalidade de uma decisão não elimina suas consequências.

É justamente por isso que consigo admirar Pedrinho e, ao mesmo tempo, questionar algumas decisões tomadas durante esse processo.

Talvez liderança também seja isso: tomar decisões, acertar, errar, ser criticado e continuar. Mas compreender a dificuldade de quem decide não significa ignorar quem sofre as consequências da decisão.

O Vasco pode estar diante de um novo capítulo de sua história. Espero sinceramente que seja um capítulo de reconstrução, responsabilidade e estabilidade.

Para o Vasco, para o futebol brasileiro, para os profissionais, para os torcedores e também para os credores.

Porque salvar uma instituição centenária é importante. Mas talvez a verdadeira medida de uma reconstrução não esteja apenas em garantir sua sobrevivência, mas também na forma como ela reconhece e trata aqueles que, mesmo sem escolher, ajudaram a pagar por ela.

Fábio Mello
Pós-graduado em Administração e Marketing Esportivo
Ex-atleta profissional de futebol
Autor do livro Jogando de Terno – Dos Campos para os Negócios
(Editora Onze)