DOIS AMIGOS, DOIS FENÔMENOS, DUAS TRANSIÇÕES

Redação

outubro 3, 2026

Quando a carreira termina, as escolhas feitas durante o caminho ajudam a definir o que vem depois.

Roberto Carlos já declarou que Ronaldo é seu melhor amigo no futebol. Talvez esse detalhe torne ainda mais interessante uma reflexão que surgiu depois de uma declaração recente do ex-lateral: segundo ele, perdeu 99% daquilo que conquistou financeiramente durante sua carreira.

De um lado, Roberto Carlos. Do outro, Ronaldo. Dois amigos, dois fenômenos, dois campeões do mundo. Dois jogadores que chegaram ao topo, conquistaram praticamente tudo o que um atleta poderia desejar e construíram reconhecimento mundial. Mas quando a carreira terminou, suas trajetórias tomaram caminhos muito diferentes.

Ronaldo transformou o capital construído no futebol em uma plataforma para o pós-carreira. Empreendeu, criou negócios, ampliou conexões, fortaleceu sua marca e atravessou as fronteiras do ex-jogador para se tornar também empresário. Roberto Carlos revelou uma experiência muito mais traumática. Segundo seu próprio relato, apesar de ter pensado e se preparado para o pós-carreira, problemas envolvendo seu ex-empresário e questões familiares fizeram com que perdesse praticamente tudo aquilo que havia acumulado financeiramente.

Faço questão de registrar minha enorme admiração pelos dois. Sou fã de Roberto Carlos e de Ronaldo. E justamente por isso considero suas histórias tão importantes. Porque elas demonstram que nem o talento, nem a fama, nem o patrimônio acumulado e nem mesmo estar próximo de pessoas extremamente bem-sucedidas garantem uma transição tranquila quando a carreira termina. Em algum momento, cada atleta precisará responder pelas escolhas feitas ao longo do caminho.

E uma das mais importantes talvez seja escolher quem caminhará ao seu lado. Empresários, advogados, contadores, gestores de patrimônio, familiares e profissionais de confiança passam a participar de decisões que podem envolver contratos, investimentos e milhões. Confiar é necessário. Mas confiança não pode significar desconhecimento. Delegar é diferente de entregar.

O atleta não precisa dominar todas as áreas de sua carreira, mas precisa compreender minimamente aquilo que está sendo decidido, negociado e assinado em seu nome. E essa consciência deveria começar nas categorias de base.

Falamos muito sobre formação integral do atleta, mas ainda concentramos enorme parte dessa formação no desempenho esportivo. Talvez seja necessário ampliar esse conceito. Educação financeira, contratos, direitos de imagem, planejamento de carreira, comunicação e preparação para o pós-carreira deveriam fazer parte da formação de quem está entrando em uma indústria que movimenta bilhões.

Existe também responsabilidade do próprio mercado. Clubes, federações e órgãos reguladores precisam buscar cada vez mais transparência nas relações. Representações devem estar formalizadas. Contratos precisam ser claros. Quem representa quem, quem remunera quem e quais interesses existem em cada operação precisam estar definidos e documentados. Quanto mais transparente for o ambiente, menor será o espaço para relações construídas apenas na confiança.

Mas nenhuma regulamentação será capaz de substituir completamente o conhecimento. Porque uma assinatura pode autorizar muita coisa. Inclusive aquilo que alguém não compreendeu que estava autorizando.

Roberto Carlos teve a grandeza de tornar pública uma experiência dolorosa e dizer que procura compartilhá-la com jogadores mais jovens para que não repitam seus erros. Ronaldo mostra outra possibilidade: transformar aquilo que o futebol proporcionou dentro de campo em oportunidades que continuam sendo construídas depois dele.

Não se trata de comparar quem foi melhor ou quem acertou mais. Trata-se de aprender com os dois. Dois amigos. Dois campeões. Dois fenômenos. Duas transições.

E uma reflexão que deveria acompanhar qualquer atleta desde o primeiro contrato: escolher bem quem caminha ao seu lado é fundamental. Mas entender para onde estão levando você talvez seja ainda mais importante.

Fábio Mello
Pós-graduado em Administração e Marketing Esportivo
Ex-atleta profissional de futebol
Autor do livro Jogando de Terno – Dos Campos para os Negócios
(Editora Onze)