Proibição das apostas pode levar R$ 25 bi ao mercado ilegal

Redação

outubro 15, 2026

A eventual proibição das apostas de quota fixa e dos jogos on-line no Brasil pode produzir um efeito contrário ao pretendido. Em vez de acabar com a atividade, a medida pode reduzir a fiscalização, ampliar o mercado clandestino e dificultar a identificação de possíveis casos de manipulação de resultados.

A International Betting Integrity Association (IBIA) chegou a essa conclusão em um estudo sobre os impactos de uma eventual proibição no mercado brasileiro. Segundo a entidade, a regulamentação ampliou a quantidade de informações disponíveis para operadores, autoridades e entidades esportivas.

Por isso, a discussão não envolve apenas a existência das apostas. Também passa por uma questão fundamental: onde elas acontecem. De um lado, existe o ambiente regulado, com regras e mecanismos de controle. Do outro, plataformas que atuam fora da fiscalização brasileira.

Mais alertas podem significar mais fiscalização

Um dos principais dados do levantamento envolve os alertas de apostas suspeitas.

Em 2025, primeiro ano completo do mercado regulado analisado pela entidade, a IBIA registrou 25 alertas relacionados ao esporte brasileiro. Entre 2021 e 2024, a média havia sido de 11 alertas por ano.

À primeira vista, esse crescimento pode sugerir um aumento dos problemas de integridade no esporte. No entanto, a IBIA apresenta outra interpretação.

Segundo a associação, o aumento dos alertas acompanha uma maior capacidade de detectar e comunicar comportamentos suspeitos. Isso ocorre porque os operadores autorizados precisam monitorar as apostas e compartilhar determinadas informações.

Assim, menos alertas não significam necessariamente um esporte mais limpo. Pelo contrário, podem indicar apenas uma menor capacidade de enxergar aquilo que acontece no mercado.

Além disso, os alertas não representam o número total de partidas manipuladas. Eles mostram ocorrências identificadas pelos sistemas de monitoramento. Quando as apostas acontecem fora do ambiente regulado, autoridades encontram mais dificuldades para detectar padrões suspeitos, rastrear contas e investigar possíveis irregularidades.

Brasil alcançou nota 77 em avaliação regulatória

O estudo também destaca a velocidade com que o Brasil estruturou seu mercado de apostas.

Em menos de dois anos, o país autorizou mais de 80 operadores. Além disso, criou exigências de identificação dos clientes, adotou medidas contra sites ilegais e estabeleceu um sistema centralizado de autoexclusão.

Ao mesmo tempo, os operadores autorizados assumiram obrigações relacionadas ao monitoramento e à comunicação de apostas suspeitas.

Em uma avaliação comparativa, a IBIA atribuiu 77 pontos, em uma escala de 0 a 100, ao marco regulatório brasileiro.

Portugal, por exemplo, aparece com 68 pontos. Já a Grã-Bretanha alcança 86.

Para a entidade, portanto, o resultado mostra que o Brasil construiu uma estrutura relevante de acompanhamento do setor em um período relativamente curto.

R$ 25 bilhões podem migrar para operadores ilegais

Outro ponto importante do estudo envolve o impacto econômico de uma eventual proibição.

De acordo com uma estimativa da H2 Gambling Capital citada no relatório, aproximadamente 60% da atividade hoje atendida pelo mercado regulado brasileiro pode migrar para operadores não autorizados caso deixe de existir uma alternativa legal.

Esse movimento representaria cerca de R$ 25 bilhões.

Além disso, a estimativa aponta que o mercado ilegal poderia crescer de aproximadamente R$ 17 bilhões para R$ 42 bilhões.

Na prática, a tese apresentada no estudo é simples: proibir a oferta legal não elimina necessariamente a procura por apostas.

Consequentemente, parte dos consumidores pode migrar para sites que funcionam fora do ambiente regulado brasileiro.

Apostador também perde proteção

Essa migração pode trazer outra consequência. O consumidor que procura uma plataforma não licenciada deixa de contar com parte dos mecanismos de proteção exigidos no mercado regulado.

Entre eles estão a verificação de identidade dos clientes, os instrumentos de jogo responsável, os sistemas de autoexclusão e as salvaguardas relacionadas aos pagamentos.

Além disso, empresas reguladas precisam fornecer determinadas informações às autoridades. Já operadores clandestinos não seguem as mesmas obrigações.

Dessa forma, o impacto não se limita ao consumidor. O próprio Estado também pode perder acesso a informações importantes para fiscalizar o mercado.

No esporte, esse ponto ganha ainda mais relevância. Sem dados sobre movimentações suspeitas, investigadores enfrentam mais dificuldades para identificar eventuais esquemas de manipulação de resultados.

Debate passa por proibir ou aperfeiçoar a regulação

A própria IBIA reconhece que o sistema brasileiro ainda apresenta problemas. Publicidade, proteção dos consumidores, supervisão das empresas e combate aos operadores clandestinos, por exemplo, continuam exigindo fiscalização e aperfeiçoamentos.

No entanto, a entidade defende o fortalecimento da regulação em vez da eliminação do mercado legal.

Segundo o estudo, empurrar apostadores para empresas que não respondem às regras brasileiras pode dificultar justamente o combate aos problemas que o poder público pretende enfrentar.

Por isso, o debate vai além de permitir ou proibir as apostas. A questão também envolve a capacidade de fiscalizar o mercado, proteger consumidores e detectar movimentações suspeitas no esporte.