A profissionalização da gestão e uma tese de investimento consistente podem determinar quanto vale um clube e quanto de seu patrimônio precisará ser negociado.
Por Luis Fernando Pessoa
O clube não precisa vender o controle para atrair investimentos. Precisa estar preparado para recebê-los. No futebol, ainda prevalece a ideia de que a entrada de um investidor exige a venda da maioria das ações ou a transferência do controle acionário. Esse pensamento pode custar caro. Um clube que busca capital sem conhecer profundamente seus ativos, suas fragilidades, seu potencial de crescimento e suas necessidades financeiras corre o risco de negociar sob pressão, entregando uma participação maior do que deveria por um valor inferior ao que poderia alcançar. Investidor não compra apenas uma camisa, uma torcida ou uma história: busca oportunidades, potencial de valorização, segurança e perspectivas de retorno.
O caminho começa antes da negociação. É preciso estruturar o clube, internamente ou com o apoio de uma consultoria especializada, realizar um diagnóstico econômico-financeiro e operacional, identificar oportunidades e desenvolver uma tese de investimento consistente. Isso significa estabelecer uma estratégia de turnaround, quando necessária, implementar governança, definir responsabilidades, profissionalizar processos e criar KPIs — indicadores de desempenho que permitam acompanhar metas, resultados e projeções. Com planejamento e disciplina de execução, o clube reduz riscos, melhora sua eficiência e demonstra ao mercado que existe um projeto de geração de valor, e não apenas uma necessidade urgente de dinheiro. A reestruturação não deve ser consequência da chegada do investidor; pode e deve ser o primeiro passo para atraí-lo em melhores condições.
Essa preparação muda o poder de negociação. Em vez de entregar o controle para resolver problemas imediatos, o clube passa a escolher quando captar recursos, quanto capital precisa e qual participação faz sentido negociar. A entrada do investidor pode ocorrer de forma gradual, vinculada a projetos, metas e necessidades de financiamento, preservando espaço para futuras rodadas de capital e permitindo que parte da valorização construída permaneça com os acionistas originais. Não se trata de rejeitar a venda do controle, mas de não transformá-la na única alternativa. No futebol, vender ações sem antes estruturar o negócio pode significar entregar hoje o valor que o clube poderia construir amanhã. Antes de negociar a participação acionária, é preciso profissionalizar a gestão, organizar a casa e construir valor. Porque a melhor negociação não é aquela que traz dinheiro mais rápido, mas aquela que transforma capital em crescimento sustentável.
Luis Fernando Pessoa
Especialista em Mercado de Capitais e Coordenador de Cursos na CBF Academy.
