O que o futebol argentino ensina ao brasileiro?

Redação

março 2, 2026

O que Marcelo Gallardo e Eduardo Domínguez ensinam ao futebol brasileiro.

Duas despedidas recentes no futebol argentino ajudam a explicar por que técnicos do país ocupam cada vez mais espaço nas principais ligas do mundo, inclusive no Brasil.

Gallardo, no River Plate, e Domínguez, no Estudiantes de La Plata, deixaram seus clubes por decisão própria e, em vez de vaias, receberam aplausos.

Gallardo pediu para sair do River. Não foi demitido, não perdeu respaldo, não caiu por resultados. Ainda assim, a torcida pediu, cantou e chorou para que ele ficasse. Reconheceu que ali havia algo maior do que títulos e vitórias: havia identidade, pertencimento e legado. Gallardo saiu como símbolo, não como um funcionário dispensável.

JS Business - Fabio Mello - 3-2-26
JS Business – Fabio Mello – 3-2-26

Já Domínguez viveu uma situação ainda mais reveladora para os padrões brasileiros. Aceitou a proposta para assumir o Atlético Mineiro e, naturalmente, o aspecto financeiro pesou na decisão. Mesmo assim, deixou o Estudiantes aplaudido. Não houve discurso de traição, gritos ou faixas acusatórias.

No Brasil, chamar alguém de “mercenário” costuma ser o padrão; esse ataque passou a ser visto como normal, como se o direito de escolher o próprio caminho fosse quase sempre um crime. Na Argentina, houve compreensão. O trabalho foi entregue com seriedade, e a resposta da torcida no estádio foi de aplausos e agradecimentos.

Esses episódios não são exceção. São reflexo de uma cultura em que o treinador, quando constrói algo consistente, passa a ser visto como parte da história do clube. Há entendimento e gratidão. Na Argentina, o técnico não deixa de ser cobrado — e muito —, mas também é reconhecido quando entrega identidade, mesmo que o ciclo chegue ao fim.

No Brasil, o contraste fica cada vez mais claro. Aqui, o treinador raramente vira símbolo e, quando vira, é provisório: vale até a próxima derrota. A troca virou regra, o tempo virou luxo e o projeto passou a existir apenas enquanto os resultados aparecem.

Ganha hoje, sobrevive. Perde amanhã, cai. Pouco importa o que vinha sendo construído.

Pode ser que o problema não esteja na qualidade dos técnicos brasileiros, mas talvez na incapacidade do nosso futebol de sustentar processos, conviver com oscilações e reconhecer trabalhos antes que eles sejam interrompidos. Uma comunicação mais transparente dos clubes sobre elenco, limites e objetivos também ajudaria a fortalecer a posição do técnico.

Enquanto tratarmos treinadores como soluções provisórias, seguiremos importando profissionais que aprenderam, “em casa”, que um técnico pode ser mais do que uma tentativa.

PODE SER LIDERANÇA, IDENTIDADE E PARTE VIVA DA HISTÓRIA DO CLUBE.

Fábio Mello | JS Business

  • Ex-jogador profissional
  • Pós-graduado em Administração e Marketing Esportivo
  • Agente FIFA/CBF
  • Idealizador do curso Uma visão global sobre gestão de clubes, negócios e carreiras, em parceria com a ESPM
  • Autor do livro Jogando de Terno – Dos Campos para os Negócios