Quem deve pagar o conta no futebol?
Hoje foi ao ar minha participação no Sport Insider, em conversa com Rodrigo Capelo. Há anos acompanho o trabalho dele e foi motivo de orgulho receber o convite.
Sempre que um pensamento foge do modelo convencional, ele naturalmente chama atenção e, muitas vezes, ganha maior repercussão.
A minha opinião vem da minha vivência como atleta, da relação com meus agentes na época, e também como empresário há mais de 20 anos, representando e negociando atletas de diferentes níveis.
Não se trata de uma verdade absoluta.
É uma reflexão construída na prática. Uma contribuição para o debate e para a evolução da indústria do futebol.
Um dos pontos que defendo, e que considero fundamental, é que:
“Clubes não deveriam pagar comissões diretas para agentes.”
Com certeza, alguém não vai gostar do tema. Mas o modelo atual gera distorções relevantes. E a prática nos mostra isso.
Os clubes, além de assumirem responsabilidades importantes como honrar salários (cada vez mais altos), investir em infraestrutura e nas categorias de base, remunerar bem e estruturar um staff cada vez mais qualificado, têm ainda mais uma obrigação financeira impactante:
As famosas comissões dos empresários. Das quais, inclusive, eu também sou remunerado.
O modelo praticado abre espaço para ruídos na relação.
Além dos contratos de trabalho e de imagem dos atletas, em muitos casos existem documentos adicionais entre clubes e empresas que, embora legítimos, é importante deixar isso claro, nem sempre são de conhecimento do atleta. E isso fragiliza um dos principais elos dessa cadeia:
A relação entre agente e atleta.
Acredito e defendo que é nessa relação de prestação de serviço que deve estar a remuneração.
Quando o atleta tem clareza total da operação, ele entende o valor do trabalho do agente, toma decisões mais conscientes e não será surpreendido no futuro por algo que desconhecia.
A exceção, na minha visão, está na transferência. Na “realização”.
Na venda desse “ativo”.
Quando o clube gera receita com a transferência, faz sentido remunerar o agente que participou diretamente da operação.
Este é o ponto central: Potencializar o atleta.
Este é o objetivo comum entre clube e agente. Qualquer objetivo paralelo a isso está desalinhado.
Mas existe um ponto ainda mais relevante.
Ao longo dos últimos anos conduzindo negociações, liderando cursos e me conectando com agentes, executivos e presidentes, percebo um ruído recorrente na indústria.
Hoje, o que vemos é um desgaste dos dois lados:
• diretores no limite com o modelo de atuação de algumas agências
• agentes se sentindo desrespeitados pelo alto nível de inadimplência dos clubes
Esse cenário reforça a necessidade de revisão. O modelo precisa evoluir e isso passa por:
• mais transparência e mais regras
• melhor definição de responsabilidades
• alinhamento de incentivos
O problema não está nas pessoas.
Nem nas classes. Está no modelo. E, enquanto ele não mudar, o conflito deixará de ser exceção
e continuará sendo parte do jogo.
E os atletas, os grandes protagonistas, nem sempre usufruirão de tudo aquilo que, de fato, lhes pertence.
Fábio Mello | JS Business
- Pós-graduado em Administração e Marketing Esportivo
- Agente FIFA/CBF
- Ex-jogador de futebol profissional
- Idealizador do curso: Uma visão global sobre gestão de clubes, negócios e carreiras, em parceria com a ESPM
- Autor do livro Jogando de Terno – Dos Campos para os Negócios
- Colunista do Jornal dos Sports

