Enquanto o reality mostra tudo, o futebol segue sendo julgado por decisões que ninguém vê.
Essa reflexão nasce, inclusive, das conversas frequentes com meus amigos e torcedores apaixonados por futebol.
Amigos que vivem o dia a dia dos clubes, acompanha tudo, opina sobre tudo e, muitas vezes, se revolta com decisões que não conseguem compreender.
Nos últimos dias, milhões de pessoas acompanharam, em tempo real, a rotina de participantes dentro de um reality show.
Opiniões foram formadas com base em contexto. Decisões foram analisadas com acesso à informação. Comportamentos foram compreendidos porque eram visíveis.
Agora, traga essa lógica para o futebol.
Imagine se fosse possível acompanhar, em tempo real, todo o processo de tomada de decisão dentro de um clube.
Imagine ter acesso às reuniões que definem a saída de um treinador.
Entender quais fatores realmente pesaram em decisões como a demissão de Filipe Luís no Flamengo ou a troca de comando envolvendo Hernan Crespo no São Paulo. Assim como, os critérios de escolhas por Leonardo Jardim e Roger Machado para substituí-los.
Imagine acompanhar todos os detalhes do departamento de futebol da CBF em ano de Copa do Mundo.
As conversas finais.
Os critérios técnicos.
Os debates internos.
A dúvida sobre levar ou não Neymar.
As escolhas que definem quem vai e quem fica fora.
Quais são, de fato, os critérios?
O que pesa mais na decisão?
O futebol é, essencialmente, um ambiente de decisão.
Decisões técnicas.
Físicas.
Emocionais.
Financeiras.
Políticas.
Humanas.
E quase todas elas são tomadas em ambientes restritos.
Reuniões de diretoria.
Avaliações de comissões técnicas.
Conversas entre executivos.
Aprovação de conselhos.
Alinhamentos com investidores.
Discussões internas que envolvem pressão por resultado, limitação orçamentária e gestão de grupo.
Sem acesso a esse contexto, o que chega ao público é apenas o desfecho. Não sabemos nada sobre os processos que definiram aquela decisão.
E isso cria um problema estrutural. O futebol é analisado pelo resultado, mas deveria ser compreendido pelo processo.
O futebol brasileiro ainda trata decisões complexas como se fossem escolhas simples. E isso não é um problema de quem analisa. É um problema de quem não comunica.
Clubes priorizaram o avanço na gestão financeira, na profissionalização e na estruturação de outros departamentos, mas ainda falham em um ponto essencial:
Precisam comunicar, de forma clara e transparente, o processo de decisão. Pelo menos o racional mínimo precisa ser exposto.
Explicar critérios.
Compartilhar diretrizes.
Dar contexto às decisões.
Não se trata de expor tudo, mas de qualificar o que é exposto.
Porque, no fim, não falta opinião. Falta compreensão. E, sem compreensão, o futebol continuará sendo julgado por emoção e suposição.
E a razão? Onde fica?
Fábio Mello
Colunista | JS Business
- Pós-graduado em Administração e Marketing Esportivo
- Agente FIFA/CBF
- Ex-jogador de futebol profissional
- Idealizador do curso: Uma visão global sobre gestão de clubes, negócios e carreiras, em parceria com a ESPM
- Autor do livro Jogando de Terno – Dos Campos para os Negócios

