Opinião do especialista: Entre a Glória e a Dor

Fabio Mello

maio 5, 2026


O futebol celebra o ídolo, mas ignora o custo de sua construção

Nos últimos dias, duas declarações chamaram atenção.

De um lado, Endrick, um dos principais nomes da nova geração, afirmando que o futebol não é um ambiente saudável e que não gostaria de ver seu filho seguindo o mesmo caminho.

Do outro, Ronaldo Nazário, ídolo de uma geração histórica, sinalizando um afastamento do futebol como investidor:

“Minha vontade é zero de estar dentro do futebol. Muito menos investir com meu dinheiro.”

Gerações diferentes. Histórias diferentes. Mas uma percepção que começa a se repetir. E isso merece atenção.

O futebol construiu, ao longo dos anos, uma imagem de sonho: fama, reconhecimento e resultados. Mas pouco se fala sobre o custo desse caminho.

A formação de um atleta começa cedo. Muito cedo. Meninos que, aos 10, 11 anos, deixam suas casas, suas famílias, sua rotina para perseguir uma possibilidade. Não uma garantia.

E, mesmo entre os poucos que chegam ao topo, a percepção sobre o ambiente muda completamente. Pressão por desempenho. Competição constante. Insegurança. Exposição a todo momento.

E uma regra silenciosa que se impõe no dia a dia:

A derrota vira crime.
A vitória, alívio. Até o jogo seguinte.

Na maioria dos casos, o atleta carrega uma história oculta de herói. Superação. Dores. Perdas. Lesões. Ausências. Escolhas. Tudo em prol de um objetivo. E, ainda assim, o jogador não pode, em momento algum, demonstrar fragilidade.

Enquanto performa, tudo é aceitável, mas, quando fala sobre dor, desgaste ou dificuldade, o ambiente reage de outra forma: ignora, minimiza e, muitas vezes, desdenha. Como se aquele ser humano não pudesse sentir tristeza pelo fato de ser “jogador de futebol profissional”.

A não ser quando a situação atinge um limite extremo.

Quando o tema vira depressão.
Quando o risco aumenta.
Quando surge a coragem de falar sobre suicídio ou automutilação.

Aí, sim, surge a comoção. Todos se sensibilizam. E os que resistem passam a ser vistos como heróis.

Mas por que precisamos chegar a esse ponto?

Por que o sofrimento só é legitimado quando se torna urgente?

O número de atletas profissionais em acompanhamento psiquiátrico é alto. E isso, por mais que faça parte do mundo atual, não pode ser tratado como normal. Precisamos estar atentos aos sinais. Há pressão de todos os lados. E, em tempos de redes sociais, o ódio circula sem limites.

Existe uma dificuldade real de lidar com o lado humano do atleta de alto nível, e isso precisa ser discutido com urgência.

Não é simples estar exposto o tempo todo, mas é responsabilidade do sistema criar estrutura para esse desgaste emocional.

É preciso proteger quem, de fato, sustenta o jogo: Os protagonistas do espetáculo.

Recentemente, em uma reunião na Academia de Futebol do Palmeiras, tive a oportunidade de conhecer o mais novo espaço do centro de treinamento, dedicado ao bem-estar dos atletas, com profissionais especializados em saúde mental à disposição.

Percebe-se que ninguém é campeão por acaso. É preciso olhar o indivíduo além do atleta. Preparar o jogador para entender o ambiente em que está inserido e a lidar com pressão, exposição e responsabilidade deixou de ser diferencial. Passou a ser necessidade. O Palmeiras é um grande exemplo disso.

O futebol precisa parar de tratar vulnerabilidade como fraqueza e começar a enxergá-la como parte do processo.

Porque, no fim, não se trata apenas de performance. Se trata de pessoas.

E, sem cuidar de quem sustenta o jogo, as consequências tendem a se tornar cada vez mais graves. E, quando o pior acontecer, o discurso será de fatalidade.

Fatalidade para quem foi conivente.
Fatalidade para quem ignorou os sinais.

O momento exige atenção.

Precisamos enxergar além.

Ou seguiremos convivendo com um problema que todos “veem”, mas poucos estão dispostos a “enxergar”.

Até ser fatal.

Fábio Mello
Colunista | JS Business

  • Pós-graduado em Administração e Marketing Esportivo
  • Agente FIFA/CBF
  • ⁠Ex-jogador de futebol profissional
  • Idealizador do curso sobre a Indústria do Futebol em parceria com a ESPM
  • Autor do livro Jogando de Terno – Dos Campos para os Negócios