O futebol brasileiro fatura mais do que nunca. Mas fatura bem?

Redação

agosto 5, 2026

Os números, à primeira vista, são de comemorar. Os 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro faturaram R$ 14,9 bilhões em 2025, um salto de 33% sobre 2024. Em cinco anos, a receita agregada do futebol brasileiro cresceu 73%. É a maior temporada financeira da história do futebol nacional.

Mas quando se olha para dentro desse número  para a composição da receita, e não apenas para o seu tamanho  a festa perde um pouco do brilho. Os dados escancaram um modelo de negócio ainda dependente de receitas voláteis, concentrado em poucos clubes e distante da previsibilidade que qualquer empresa e um clube de futebol é, cada vez mais, uma empresa precisa para planejar investimento estrutural.

Em 2025, praticamente 58% de toda a receita dos clubes da Série A veio de duas fontes por natureza instáveis: direitos de transmissão e premiações (32%) e venda de jogadores (26%). Ambas dependem de fatores que o clube não controla plenamente: desempenho esportivo, calendário de competições internacionais, apetite do mercado europeu por atletas brasileiros.

Não é acaso que o salto de receita de 2025 tenha nome e sobrenome: Copa do Mundo de Clubes da FIFA. A competição injetou cerca de R$ 86 milhões fixos por clube participante, com bônus que chegaram a R$ 713 milhões para o campeão. O Fluminense, único brasileiro semifinalista, viu sua receita de direitos de transmissão saltar 247%  de R$ 167 milhões para R$ 580 milhões em um único exercício. O Botafogo passou de R$ 36 milhões para R$ 746 milhões em receita de transferências no mesmo período, puxado pelas vendas de atletas.

São eventos extraordinários. Ótimos para o caixa de um ano, péssimos como base de planejamento plurianual. Um clube que constrói orçamento, contrata elenco e assume compromissos de longo prazo tendo como lastro uma classificação de mata-mata ou a negociação pontual de um atleta está, na prática, gerindo sua operação como quem aposta, não como quem investe.

O contraponto natural a essa volatilidade seria o fortalecimento das receitas recorrentes: comercial, matchday, clube social. E aqui os números são, na melhor das hipóteses, moderadamente animadores.

A receita comercial de patrocínios, licenciamentos, mídia digital  passou de 16% da receita total em 2021 para 21% em 2025. É o único indicador de composição que melhora de forma consistente ano a ano. Mas segue sendo um quinto do bolo, quando deveria ser a espinha dorsal.

Já o matchday caminha na direção contrária: caiu de 16% (média de 2022 a 2024) para 12% em 2025  isso em um ano de recorde de público e de ingressos vendidos no campeonato inteiro. Ou seja: o produto “estádio cheio” está performando, mas sua participação relativa encolhe porque as outras receitas, sobretudo as extraordinárias, crescem mais rápido. Isso é sintoma, não solução.

Há ainda um segundo problema, tão grave quanto a volatilidade: a concentração. Cinco clubes  Flamengo, Palmeiras, Botafogo, São Paulo e Fluminense respondem por 49% de toda a receita da Série A em 2025. No acumulado de 2021 a 2025, dez clubes concentram 57% da receita total do campeonato, e apenas dois  Flamengo e Palmeiras somam 34%.

Isso significa que, para a maioria dos 20 clubes que disputam a elite do futebol brasileiro, o crescimento de 33% na receita agregada é, na prática, uma estatística que não os representa. A distância entre o topo e a base do futebol brasileiro não está diminuindo.

O reverso da moeda de um modelo baseado em receita não recorrente é o endividamento. O endividamento líquido consolidado chegou a R$ 14,3 bilhões em 2025, alta de 15% sobre 2024 e de 46% desde 2021  crescimento superior, inclusive, ao da própria receita no mesmo período. As dívidas com empréstimos saltaram 34% em um único ano, e o passivo tributário avançou 22%.

O que isso significa, na prática, para quem gere um clube? Nenhum executivo de qualquer outro setor da economia aceitaria construir um plano de investimento em infraestrutura  um CT, um estádio, uma base de formação apostando que a receita do próximo ano vai se repetir na mesma magnitude de um ano marcado por uma Copa do Mundo de Clubes ou pela venda excepcional de um ativo. E é exatamente isso que grande parte dos clubes brasileiros ainda faz, porque a receita recorrente aquela que se pode projetar com razoável segurança de um ano para o outro ainda é minoritária na maioria dos casos.

O caminho para um futebol brasileiro financeiramente maduro não passa por rejeitar a receita de transferências ou a de premiação elas continuarão existindo e são, de fato, parte legítima do negócio. Passa por diluir sua importância relativa, construindo bases sólidas de receita comercial de longo prazo (patrocínios, licenciamento, conteúdo próprio), programas de sócio-torcedor mais robustos e uma exploração mais eficiente do matchday  inclusive por meio da gestão direta de arenas.

Os números de 2025 provam que o futebol brasileiro é, hoje, um negócio maior do que nunca foi. Falta provar que é, também, um negócio mais previsível. Enquanto isso não acontecer, cada temporada extraordinária continuará sendo comemorada como se fosse a nova normalidade até o ano em que a Copa do Mundo de Clubes, ou a venda milionária do futuro craque, simplesmente não vier.