Outro dia estive na Gávea, para o relançamento do livro “1981: O primeiro ano do resto de nossas vidas”, quando parei para saborear a cena. Ali, abraçados, estavam meu pai – o cara que, além de tudo, me levou ao Maracanã a primeira vez, e o Zico. Sim, eu vi o Zico.
Em instantes assim, só o que passa na minha cabeça é aquele pensamento que toda pessoa normal teria. “E se o Godzilla saísse da lagoa Rodrigo de Freitas, sacudisse a água do ouvidão e viesse na direção do Flamengo? Quem eu salvaria primeiro? A resposta é: meu pai, claro. Zico, como todos sabem, sairia voando de punhos cerrados, após resgatar 17 crianças.
Falei com o Galo sobre a estreia de seu filme, “Zico, o Samurai de Quintino”, e saí do clube a pensar que histórias incríveis, talvez inéditas, o documentário vai levar aos cinemas. E lembrei de uma das minhas favoritas, ocorrida há 25 anos, e que o grande Herbert Vianna adora contar, com aquele sorriso contagiante.
Pouco antes do carnaval de 2001, o músico voava com sua esposa Lucy quando o céu caiu sobre suas cabeças. A queda da pequena aeronave Fascination D-4 no mar de Mangaratiba levou Lucy e deixou Herbert Vianna em coma por 20 dias, do fatídico dia 4 de fevereiro até o sábado de carnaval.
Filho de um piloto da Força Aérea Brasileira, Herbert amava Lucy, voar e tocar. Após 44 dias no Copa D’or, recuperou-se por milagre, e foi para sua casa, no Recreio dos Bandeirantes, com a alma ainda destroçada.
Foi uma fase deprê, segundo lembra o próprio guitarrista, um paraibano crescido em Brasília e consagrado no Rio. Um brasileiro. Certo dia, em suas recordações, ele acordou e disse ao seu mais velho, de 12 anos, para que proibisse as visitas. Não queria papo, não estava para ninguém. Foi aí que…
– Paizão! Tu não vai acreditar.
– Filho… A memória está voltando. Eu sei que a Lucy morreu…
– Não é isso não, papai. O Zico taí! Para te visitar!
– Oi?
Aqui vale lembrar que o músico sempre teve três ídolos na vida: Jimi Hendrix, Eric Clapton e Arthur Antunes Coimbra. Ao ver entrar o camisa dez da Gávea, Herbert sentiu sua alma iluminar e as nuvens pesadas soprarem para longe. O Zico!
Empolgado como há meses não ficava, Herbert fez perguntas, mostrou uma memória rubro-negra afiada e falou de futebol. Até que surpreendeu geral:
– Não me leva a mal, Zico. Mas eu preciso beijar seu santo pé!
Protestos gerais. Os enfermeiros foram contra. O que era isso! E os germes? Alguém tratou de tirar o tênis de Zico, para uma higienização no pé sagrado.
Rápido no gatilho, o filhão Luca se antecipou: “Deixa comigo!”. E lascou um beijão no pé de Zico, em nome do pai. Para risos gerais, como Vianna relembrou um dia para o Faustão.
Meses depois, um dia após o outro, Herbert retomou a vida. Em junho de 2002, fez sua primeira aparição pública, ao lado do argentino Rodolfo “Fito” Páez. Ao anunciá-lo no palco, Fito o definiu:
“Você tem o sol, o vento, as cordilheiras e o mar. E há outra força da natureza que é brasileira. Chama-se Herbert Vianna”.
E há Zico, o todo poderoso que, segundo alguns, foi o criador de todos esses elementos do céu à terra. Um rei capaz de exterminar qualquer abatimento e confortar a todos nós, seus súditos humildões.

