Minha primeira Copa do Mundo: 1994. Romário, eu te amo.

Pedro Chiaverini

junho 11, 2026

Impossível fugir dos clichês quando falamos de Copa do Mundo.

Talvez porque a Copa seja justamente o lugar onde eles nascem.

O pai abraçando o filho.

A rua pintada de verde e amarelo.

Os vizinhos que viram amigos por noventa minutos.

O grito preso na garganta.

O choro sem vergonha.

Para muita gente, a Copa é um torneio.

Para mim, foi um nascimento.

Foi ali que descobri o futebol.

E esse descobrimento tem nome, sobrenome e apenas 1,69m de altura: Romário de Souza Faria.

Até hoje considero o maior jogador que vi jogar depois de Pelé.

Sou de 1985. A Copa de 1990 é uma fotografia desfocada na minha memória. Lembro mais das confraternizações na casa de amigos dos meus pais do que dos jogos propriamente ditos.

Minha primeira Copa do Mundo: 1994. Romário, eu te amo.
Minha primeira Copa do Mundo: 1994. Romário, eu te amo.

Mas a Copa de 1994…

Essa eu vivi.

Ou melhor: ela começou em 1993.

Lembro como se fosse ontem da derrota para a Bolívia em La Paz. Dois a zero.

E lembro do troco no Maracanã.

Seis a zero.

Ali vi um jogador pedalar pela primeira vez na vida.

Zinho, nosso meia esquerda que vestia a camisa 9, driblava de um jeito que parecia impossível.

Mas não era só ele.

Aquela seleção era povoada por personagens.

Heróis.

Ídolos.

Figuras que habitavam o imaginário de qualquer criança.

Taffarel era um deles.

Nosso paredão.

Nosso Velho El.

Falhou uma única vez e, talvez por isso, eu me lembre até hoje.

Mas as defesas?

Foram tantas que perderam a conta.

Criança não faz estatística.

Criança cria lendas.

E Taffarel era uma delas.

Eu tinha certeza de que, se a bola fosse na direção dele, alguma coisa aconteceria.

Alguma defesa milagrosa.

Algum voo impossível.

Alguma salvação.

Dunga era outro.

Hoje lembro dos lançamentos, dos desarmes, da liderança, da personalidade.

Mas, aos nove anos, o que eu queria mesmo era o cabelo dele.

Aquele cabelo espetado, duro de tanto gel, parecia a coisa mais incrível do mundo.

Tentei reproduzir inúmeras vezes.

Meu lendário barbeiro, Vasco, encerrava rapidamente qualquer discussão.

— Não dá.

Eu insistia.

— Mas faz igual ao do Dunga.

— Não dá.

Nunca consegui ficar parecido com Dunga.

Mas, por alguns segundos depois de cada corte, eu acreditava que tinha conseguido.

Não importa.

O imaginário vive até hoje.

E tinha Bebeto.

Ah, o Bebeto.

Romário era meu herói maior.

Mas Bebeto era o queridinho da criançada.

Quem nunca tentou repetir um voleio dele na cama dos pais?

Quem nunca correu de braços abertos pelo corredor depois de marcar um gol imaginário?

Quem nunca imitou aquela comemoração?

Romário era o gênio.

Bebeto era o sonho.

E eu amava os dois.

Mas sofremos muito naquelas Eliminatórias.

Tanto que precisamos recorrer ao gênio.

Ao craque.

Ao cara que mudaria tudo.

Mesmo contra a vontade dos teimosos Parreira e Zagallo.

Você não viu e provavelmente nunca verá novamente um jogador colocar seu país numa Copa do Mundo e, meses depois, liderar a conquista desse título.

O que Romário fez em 1993 contra o Uruguai foi a maior atuação individual que já vi de um jogador profissional.

E durante anos tentaram diminuir sua genialidade.

Rotularam-no como um simples gênio da área.

Como se fosse pouco.

Como se fosse verdade.

Romário era gênio das quatro linhas.

Arrancava.

Driblava.

Canetava.

Cabeceava.

Bagunçava.

Humilhava.

Finalizava com as duas pernas.

Era habilidosíssimo.

Era técnico.

Era gênio.

Era mágico.

Estávamos à beira do abismo.

Quase fora da Copa.

Então apareceu Romário.

O primeiro gol veio do céu, apesar dos seus 1,69m.

Bebeto levantou a bola com açúcar.

Romário subiu como se a gravidade tivesse decidido tirar folga.

Testou para o chão, como ensinam os professores das escolinhas.

Siboldi ficou pelo caminho.

Um a zero.

Maracanã em erupção.

Mas Romário nunca foi homem de fazer apenas o suficiente.

Ele sempre tinha mais.

Numa roubada de bola de Mauro Silva, seguida de uma enfiada de trivela, recebeu exatamente do jeito que gostava.

Jogou o corpo para a esquerda.

Levou a bola para a direita.

Siboldi tentou resolver no soco.

Tentou.

Romário já estava em outro lugar.

Além da perfeição técnica, tinha velocidade.

Arrancada.

Explosão.

O gol ficou vazio.

Dois a zero.

Minha primeira Copa do Mundo: 1994. Romário, eu te amo.

Claro que o jeito como Romário batia na bola merece um capítulo próprio.

A chapada.

O peito do pé.

O biquinho.

Tudo era especial.

Tudo parecia simples.

Tudo carregava um refinamento técnico absurdo.

A bola amava aqueles pés.

Acabou o trauma.

Acabou La Paz.

As imagens aparecem na minha mente enquanto escrevo.

Como foi doloroso.

E como foi bonito o alívio.

A partir dali nasceu uma paixão avassaladora.

Veio a Copa.

Ele havia prometido o título.

E, se não conseguisse, a culpa seria dele, segundo palavras do nosso 11.

Contra a Rússia, gol de oportunismo.

A bola escapando.

O espaço apertado.

A finalização rápida.

Os braços abertos.

O biquinho nos lábios.

Era ele.

Não tinha jeito.

Sempre foi ele.

Tinha que ser dele.

Contra Camarões?

Mais um gol.

Mais um biquinho inesquecível.

Na finalização e na comemoração.

Contra a Suécia?

Mesmo roteiro.

Em cima do mala do Ravelli, que me irritava profundamente no auge dos meus nove anos.

Contra os Estados Unidos, “só” teve assistência para o gol da vitória.

E a declaração de Bebeto:

— Eu te amo.

Não sou Bebeto.

Mas eu também te amo, Romário.

Contra a Holanda veio o sufoco.

Mas também veio mais uma demonstração de genialidade.

Um sem-pulo maravilhoso.

Uma pintura.

E aquela acrobacia na falta cobrada por Branco.

Veio a Suécia de novo.

Veio Romário de novo.

Veio gol de cabeça de novo.

Cruzamento mágico de Jorginho.

Na final não marcou durante os noventa minutos.

Guardou para os pênaltis.

Aliás, que cobrança.

Que cobrança.

Pagliuca ficou transtornado.

Coitado.

Achou que pegaria um pênalti do Romário.

Numa final de Copa do Mundo.

Éramos tetracampeões.

E só estávamos ali porque Romário colocou o Brasil naquela Copa.

E liderou a conquista.

Mas quando penso em 1994, não lembro apenas dos gols.

Lembro do chão da sala.

Lembro dos meus pais.

Lembro da televisão ligada.

Lembro do coração disparado.

Lembro da caminhada depois da conquista.

Tijuca.

Conde de Bonfim.

Saens Peña.

Lembro da primeira vez que me deixaram falar palavrão.

A rua inteira cantava:

“Bebeto, Romário, Roberto Baggio foi pra casa do caralho.”

Meu pai liberou o xingar durante todo o trajeto.

Dez minutos.

Para um menino de nove anos, aquilo parecia liberdade absoluta.

Achei o máximo.

Lembro da música.

Da festa.

Da cidade sorrindo.

Da família reunida.

Do meu pai gritando como uma criança.

Hoje percebo que a Copa de 1994 me deu muito mais do que uma estrela na camisa.

Ela me deu uma memória para a vida inteira.

Deu-me uma paixão.

Deu-me uma família reunida diante da televisão.

Deu-me o futebol.

E deu-me o meu primeiro ídolo.

Quando criança, eu achava que Romário tinha colocado o Brasil na Copa.

Hoje, adulto, continuo achando.

Talvez por isso ele nunca tenha saído daquele lugar reservado aos heróis da infância.

Porque o tempo passa.

Os jogadores envelhecem.

As fitas viram vídeos.

As crianças viram pais.

Hoje, meu filho não liga tanto para futebol.

Mas, com ajuda do álbum, fala o dia todo sobre Tio Messi, Tio Mbappé, Tio Cristiano Ronaldo e o Tio Neymar, “que vive machucado”.

Algumas paixões permanecem intactas.

A minha veste a camisa 11.

E atende pelo nome de Romário.

Vou ser repetitivo:

Não sou Bebeto.

Mas também te amo.

Obrigado por tudo.

Obrigado por me mostrar o que é o futebol.