Morreu Marcos Penido, aos 74 anos.
E há mortes que não levam apenas um homem. Levam um jeito de ser. Um jeito de trabalhar. Um jeito de atravessar a vida sem precisar empurrar ninguém para parecer maior.
Marcos Parreiras Horta Penido faleceu na madrugada desta sexta-feira, aos 74 anos, no Hospital Silvestre, no Cosme Velho. Há alguns anos enfrentava um quadro de insuficiência cardíaca, que se agravou nos últimos dez dias e acabou afetando também os rins. Penidão deixa a esposa, Rita, e dois enteados. A despedida será neste domingo, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, onde o velório começa às 10h. O sepultamento está marcado para as 13h.
Mas permitam que eu não fale apenas de sua morte.
Prefiro falar de Penidão.
Marcos Penido e o jornalismo de verdade
De 2007 a 2009, fui estagiário do Jornal dos Sports. Naquele tempo, estagiário de jornal esportivo ia para a rua. Cobria treino, encarava coletiva, procurava notícia, esperava jogador, voltava para a redação.
E, durante meu período como setorista do Flamengo, ainda um garoto tentando encontrar seu lugar naquele mundo, tive o privilégio de conviver na Gávea com Marcos Penido.
Eu me sentia um peixe fora d’água.
E havia motivos.
O ambiente podia ser sufocante. Havia uma promiscuidade desconfortável entre alguns personagens da imprensa e do futebol.
Estagiário de assessoria de imprensa — hoje empresário de jogador famoso — correndo pelos corredores da Gávea para se atirar nos braços de titular do Flamengo. Bajulação travestida de jornalismo. Gente tratando jogador como se fosse pai, filho ou divindade.
Certa vez, um desses personagens foi flagrado ouvindo escondido uma reunião dos jogadores. O capitão daquele Flamengo o pegou pelo colarinho e lhe deu uma descompostura daquelas que dispensam qualquer nota oficial.
Cenas pífias e patéticas, como diria Mauro Cézar Pereira.
Para um estagiário, aquilo confundia.
Eu olhava em volta e me perguntava, mesmo sem formular exatamente a pergunta: era aquilo o jornalismo esportivo?
Então eu olhava para Penidão.
E encontrava a resposta.
Alto, elegante, posturado, gentil.
Um gentleman.
Penidão parecia dar de ombros para aquele pequeno teatro das vaidades. Não precisava correr para abraçar jogador. Não precisava anunciar intimidades. Não precisava ocupar o centro da roda nem provar que tinha o telefone de fulano ou que era amigo de sicrano.
Ia à Gávea para trabalhar.
Assistia ao treino. Observava. Anotava. Ouvia. Perguntava. Pensava. E voltava para a redação.
Simples assim.
Ou difícil assim.
E havia algo ainda mais marcante: tratava todo mundo bem.
O estagiário e o jornalista consagrado recebiam o mesmo Penidão. Solícito, educado, elegante. Nunca o vi precisar diminuir alguém para demonstrar a própria importância.
No dia seguinte, porém, vinha a aula.
Você abria O Globo e encontrava uma página de Marcos Penido.
E ali estava tudo aquilo que ninguém tinha visto.
Bastidor. Informação. Furo. Personagem. Futebol. Texto.
Enquanto boa parte da cobertura terminava no resultado do coletivo, no jogador que não treinou e no inevitável “vamos em busca dos três pontos respeitando o adversário”, Penidão encontrava uma história.
E sempre uma história incrível.
Ele era um contador das melhores.
Isso me impressionava profundamente.
Porque, enquanto alguns pareciam precisar de relações íntimas com jogadores para conseguir informação, Penidão simplesmente fazia jornalismo.
E fazia um jornalismo extraordinário.
Claro, que, hoje, isso não existe mais.
Ele enxergava além.
Talvez essa seja uma das definições mais bonitas de um grande repórter: enxergar aquilo que estava diante dos olhos de todos, mas que ninguém mais conseguiu ver.
Penidão conseguia.
Sem espalhafato.
Sem fazer de si mesmo a notícia.
Sem precisar parecer jornalista.
Marcos Penido era jornalista.
Dos grandes.
E não é força de expressão.
Nove Copas do Mundo e dois Prêmios Esso
Chamado carinhosamente de “Penidão” pelos amigos, trabalhou durante 32 anos em O Globo. Passou também pelo Jornal do Brasil e construiu uma dessas carreiras que pertencem à história da imprensa esportiva brasileira.
Venceu duas vezes o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1983 e 1994.
E cobriu, consecutivamente, nove Copas do Mundo, de 1982 a 2014.
Nove Copas.
Da Espanha de 1982 ao Brasil de 2014.
Nesse intervalo, o mundo mudou. O futebol mudou. O jornalismo mudou. O Brasil mudou. Craques surgiram e desapareceram. Seleções encantaram e fracassaram. Gerações inteiras passaram diante de seus olhos.
Penidão estava lá.
Vendo.
Ouvindo.
Perguntando.
E contando.
Mas seria pouco lembrá-lo apenas pelas nove Copas, pelos dois Prêmios Esso, pelos furos, pelas grandes páginas e pelo texto impecável.
Porque havia o homem.
E o homem talvez fosse ainda maior.
Num ambiente tantas vezes dominado por egos, vaidades e pequenas disputas, Penidão era uma presença agradabilíssima. Tinha classe sem afetação. Educação sem submissão. Autoridade sem arrogância.
Eu era apenas um estagiário.
Ele já havia atravessado Copas do Mundo, conquistado os maiores prêmios do jornalismo brasileiro e construído uma carreira que eu sequer conseguia dimensionar naquela época.
Isso também é grandeza.
Influenciar pelo exemplo
Quase duas décadas se passaram desde aqueles dias na Gávea.
O jornalismo mudou. O futebol mudou. O mundo mudou.
Hoje contamos seguidores, curtidas, visualizações e alcance. Fabricamos celebridades diariamente e chamamos de influência aquilo que, muitas vezes, não deixa absolutamente nada depois que a tela apaga.
Conteúdos vazios.
Um “lá ele” interminável.
Pobreza sem fim.
O público gosta.
As marcas pagam.
E as pessoas pegam o celular para falar qualquer abobrinha em busca disso.
Quem não fizer, não se adaptou aos novos tempos.
Aliás, que tempos vivemos!
Por isso é tão necessário falar de Penidão.
Porque Marcos Penido foi influenciador muito antes de transformarmos essa palavra em profissão.
Influenciou pelo texto.
Pela informação.
Pela postura.
Pela educação.
Pelo exemplo.
Um jovem estagiário podia observá-lo trabalhando e aprender, sem que Penidão precisasse dar uma única aula, como um jornalista deveria se comportar.
Há homens que ensinam falando.
Outros ensinam existindo.
Penidão era desses.
Hoje, perde o jornalismo brasileiro.
Perde o Rio de Janeiro, cenário de tantas histórias que ele soube contar.
Perde o futebol.
Perde O Globo, onde deixou 32 anos de sua vida.
E perde o Botafogo, seu clube do coração.
Penidão era botafoguense. E talvez exista alguma poesia nisso. Torcia pela Estrela Solitária justamente um homem que nunca precisou dos refletores para brilhar.
Todos nós perdemos um representante de uma espécie de jornalista que jamais deveria entrar em extinção.
Aquele que apura antes de falar.
Que observa antes de escrever.
Que não confunde fonte com amigo.
Que não precisa ser maior do que a notícia.
Que entende que proximidade não é intimidade, que acesso não é bajulação e que uma assinatura vale muito mais quando existe caráter por trás dela.
Marcos Penido morreu aos 74 anos.
Mas deixou uma coisa que algoritmo nenhum consegue fabricar, dinheiro nenhum consegue comprar e número de seguidores nenhum consegue medir:
respeito.
Num tempo em que tanta gente deseja ser seguida, Penidão deixou algo infinitamente mais bonito.
Deixou exemplo para ser seguido.
Todos deveriam ser como Penidão.
