Leandro: a camisa 2 que vestiu a minha infância

Redação

outubro 3, 2026

Por: Marcos Vinicius Cabral

A fase mais brilhante da minha vida e dos meus olhos foi quando, ainda pequeno, eu via alguns jogadores tratando a bola de futebol com o carinho que ela merece.

Aquele carinho de quem cuida da bola como se fosse um filho. De quem zela, de quem amamenta, de quem pega no colo e faz dos seus braços morada.

O carinho de quem se doa. De quem dá a vida.

Talvez, quem sabe, o carinho de um beija-flor que para no ar para beijar a flor, numa manhã de sol arrefecido pelas poucas horas do dia.

Ou, ainda, o carinho de uma águia que busca o alimento e o leva de volta ao ninho para matar a fome do filhote.

Da coruja escondida no buraco, com os olhos enormes, sobejantes, atentos ao mundo.

O carinho é assim… Tem diferentes formas.

Leandro também era assim.

Vestindo a camisa 2, sofria horrores com os joelhos doentes e, ainda assim, ultrapassava os obstáculos como a água que flui pelas trincheiras de um córrego, encontrando sempre um caminho para seguir.

Não foi um riacho pela Seleção. Leandro, usando a camisa 2 ou a 3, foi um mar de ondas navegantes, onde emoção e razão se digladiavam dentro dele para decidir a hora de parar.

Ele parou.

E, até hoje, passados 36 anos, muitos de nós, rubro-negros, sentimos sua falta em campo. Sentimos falta daquela corrida esquisita, de quem parecia não chegar à bola antes do adversário.

Mas o Mula-Manca – apelido dado por Paulo César Carpegiani – chegava.

Ah, se chegava!

Nos assustava quando aquelas pernas arqueadas, de cowboy desarmado, eram sua arma aliada ao talento que Deus lhe deu.

Uma arma potente. Perigosa. Muito, mas muito letal.

Os joelhos… Ah, se não fossem esses malditos joelhos!

Foram eles que fizeram José Leandro de Souza Ferreira sepultar o Leandro em um jogo contra o Bangu, em Moça Bonita, em 1990. Ficamos órfãos daquela abusada categoria de quem não dava chutões – porque, para ele, não existia essa história de “bola pro mato que o jogo é de campeonato”.

Não.

Não mesmo!

Ele queria jogar.

Queria se mostrar.

Queria mostrar para todo mundo que podia.

Não é mesmo, Raul?

Como naquela frase que ficou marcada para sempre: “Velho, eu jogo para c…”

E jogava.

Jogava muito.

Contra o Grêmio, em pleno Estádio Olímpico, em Porto Alegre, naquela decisão do Campeonato Brasileiro de 1982, ele mostrou ao Brasil inteiro que a camisa 2 podia ser também uma camisa de artista.

Mas nada é eterno.

E não seria esse cabofriense quem quebraria esse velho e batido clichê.

Leandro, eu te conheci menino, quando tinha 13, 14 anos. Imitava você nas peladas no Barreto, em Niterói, colocando pedaços de fita isolante em forma do número 2 em cima do 10 de Zico.

Hoje, aos 52 anos e sendo autor do “Meu Manto, primeiro e único”, livro que conta um pouco da sua história, sou ainda mais infantil.

Porque, quando a saudade aperta, eu pego trechos do seu livro ou aquela fita VHS que você me deu, produzida pelo Marinho, e passo horas revendo aquilo que você era capaz de fazer com uma bola nos pés.

E fico pensando…

Não haverá outro Pablo Picasso.

Outro Ayrton Senna.

Outro Elvis Presley.

Outro Mike Tyson.

Outro Pelé.

Outro Zico.

Não haverá.

E, se houver outro Leandro, eu gostaria de estar aqui, neste mesmo plano terrestre, para vê-lo.

Mas o pecado adâmico não vai me permitir.

E talvez seja justamente por isso que a lembrança seja tão bonita.

Porque algumas pessoas não precisam estar presentes para continuar vivendo dentro da gente.

Elas permanecem.

Permanecem nas imagens.

Nos gols.

Nos dribles.

Nas arrancadas.

Nas histórias.

Nas saudades.

E você permanece em mim.

Permanece naquele menino que te admirava e te imitava nas peladas.

Naquele rubro-negro que te aplaudiu muito em campo – e que também te xingou muito quando você não viajou para o México para disputar sua segunda Copa do Mundo, em 1986.

Confesso: não sou perfeito!

O xingamento mais suave que proferi naquele 1986 foi: “cretino” e “mau-caráter”.

Hoje, tantos anos depois, eu peço perdão.

Eu não sabia o que fazia.

Era apenas uma criança de 13 anos.

E você era, para mim, um super-herói.

Não daqueles que tinham poderes como o Superman.

O seu poder era outro.

Era jogar futebol.

E naquele Fla-Flu de 1985…

Ah, naquele Fla-Flu de 1985…

Aquilo foi coisa de super-herói.

Você contra a vilania de um tricolor medroso e retraído que fez 1 a 0 e colocou o resultado embaixo do braço.

E nós, do outro lado, acreditando que o nosso herói jamais poderia nos abandonar.

Que saudade daquela época…

Que saudade do velho Maracanã…

Que saudade daquele menino que eu era…

E, principalmente…

Que saudade de você, Leandro.

Talvez seja por isso que, quando vejo a camisa 2 ou a 3 entrando em campo, meus olhos ainda brilhem.

Porque algumas camisas vestem o corpo.

Outras vestem a história.

E a sua…

A sua vestiu a minha infância.

E isso, Leandro, nem o tempo, nem os joelhos, nem a aposentadoria, nem os 36 anos de ausência serão capazes de apagar.