JS Business com Fabio Mello: ‘Pressa dos pais; preço dos filhos’

Fabio Mello

fevereiro 6, 2026

Durante muitos anos, o futebol conviveu com a chamada “Lei de Gérson” dentro de campo: a ideia de levar vantagem a qualquer custo. Hoje, ela parece ter ultrapassado as quatro linhas e encontrado espaço em outro ambiente sensível — o processo de formação de jovens atletas.

Não por acaso, algumas federações chegaram ao ponto de fechar os portões para os pais em competições Sub-11 e Sub-13. A decisão extrema é reflexo de um problema recorrente: cobranças excessivas por vitória, ansiedade por destaque individual, conflitos com treinadores, desrespeito às hierarquias e um ambiente que deixa de ser formativo para se tornar tóxico.

Fora dos estádios, o cenário não é menos preocupante. Há pais que trocam de agentes, clubes e patrocinadores com frequência, como se o futebol de base fosse uma vitrine permanente de negociações. Muitos abandonam suas próprias profissões, projetos e rotinas para viver exclusivamente a vida do filho. O jovem deixa de ser alguém em desenvolvimento e passa a ser tratado como projeto, ativo, produto. A infância, muitas vezes, vira plano de negócios.

É fundamental deixar algo claro: não existe nada mais importante do que pai e mãe. São eles a base emocional, afetiva e moral de qualquer atleta. Mas, no futebol, atitudes constroem — ou destroem — trajetórias.

O mercado aprende rápido. Não apenas quem é o jogador, mas também quem está ao redor dele.
E, nesse ambiente, reputação é um ativo valioso — ou um passivo difícil de administrar.

Muitos pais acreditam que estão ajudando quando, na prática, sabotam silenciosamente o caminho do próprio filho. Todo o investimento feito para o atleta performar dentro de campo pode ser neutralizado por comportamentos fora dele: interferências constantes, pressões desnecessárias, instabilidade, oportunismo e falta de respeito institucional.

O desenvolvimento de um jogador não acontece no tempo da ansiedade familiar. Ele acontece no tempo do projeto esportivo, da maturação física, emocional e profissional. Forçar atalhos quase sempre resulta em caminhos quebrados.

Em diversos casos, o jovem sequer precisaria de empresário tão cedo. O mercado chega ao talento. O processo é natural. A pressa, quase sempre, atende mais às expectativas e às necessidades dos adultos do que às do próprio atleta.

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O jogador mesmo sendo expoente, precisa de sequência, estabilidade e proteção — dentro e fora de casa.

Os obstáculos fazem parte da carreira. Assumir responsabilidades também faz parte da formação. A maior lesão, muitas vezes, não é muscular. É emocional. E, nesse processo, é preciso dizer o que raramente se diz em voz alta: nem todo erro está no clube, no treinador ou no sistema.

O maior desejo de quem trabalha seriamente com futebol é ver esses jovens brilharem — com saúde, equilíbrio e uma trajetória vencedora. Mas talento não sobrevive à instabilidade, e carreira não resiste à interferência constante.

Em muitos casos, o maior risco para o futuro do atleta não está no adversário, nem na falta de oportunidade.


Está dentro de casa.


Na pressa, no ego e na incapacidade de alguns adultos de entender que amar também é saber recuar.

Também é preciso reconhecer os pais que entendem que o futebol é processo, não urgência. Que respeitam os clubes, os profissionais e o tempo de desenvolvimento dos filhos. Que sabem apoiar sem interferir e confiar sem pressionar.

Esses pais, quase sempre discretos, ajudam a construir carreiras mais sólidas, equilibradas e duradouras. Porque, no futebol, paciência e coerência ainda valem mais do que pressa.

A formação de um atleta é um processo que exige tempo, limites e confiança nas relações que o cercam. Quando cada parte entende seu papel, o talento tem espaço para crescer.