Entre a autoridade de Jorge Jesus e o protagonismo de Cristiano Ronaldo, uma reflexão sobre liderança, transição e a dificuldade de compreender que a importância também pode mudar de lugar.
Existem momentos no futebol em que o problema não está necessariamente em quem tem razão. Está em administrar duas razões, duas histórias e, principalmente, dois protagonismos. A relação entre Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo nos convida a uma reflexão sobre os desafios de comandar e de compreender as transformações que o tempo impõe a qualquer carreira.
De um lado, um treinador experiente, vitorioso e com uma personalidade conhecida. Jorge Jesus sempre exerceu o comando de maneira muito clara. Sua comunicação é forte, sua convicção é pública e seu ego também faz parte da personalidade que construiu ao longo da carreira. Isso pode incomodar, mas no futebol, em determinados momentos, também pode ser necessário. Treinadores como Luxemburgo em seu auge, Felipão, Zagallo, Muricy Ramalho e, mais recentemente, Abel Ferreira, cada um à sua maneira, protagonizaram coletivas históricas, algumas inesquecíveis. São estilos diferentes, mas com algo em comum: o comando precisa ser reconhecido. Um treinador que começa a negociar sua autoridade a cada decisão corre o risco de deixar de comandar.
A hierarquia precisa existir. Mas existe também uma pergunta importante: como exercer autoridade diante de alguém como Cristiano Ronaldo? Alguém que representa muito mais do que apenas um jogador. Um dos maiores jogadores da história do futebol mundial. O maior artilheiro da seleção portuguesa, seu jogador com mais partidas e, durante mais de duas décadas, uma das principais referências esportivas do mundo. Cristiano está com 41 anos e talvez esteja vivendo uma das transições mais difíceis para qualquer atleta extraordinário: deixar de ser indispensável dentro de campo sem deixar de ser importante para o grupo, para seu país e para o futebol.
Durante praticamente toda a carreira, Cristiano foi preparado para uma coisa: ser protagonista. Pedir a bola. Decidir. Fazer gols. Assumir responsabilidades. Querer jogar sempre. Foi justamente essa mentalidade que ajudou a construir o Cristiano Ronaldo que conhecemos. Mas chega um momento em que aquilo que ajudou um atleta a chegar ao topo precisa ser administrado para que ele consiga sair dele com a mesma grandeza. E talvez aí esteja uma das maiores dificuldades do esporte.
Ninguém ensina o protagonista a deixar de ser protagonista. Ou, melhor dizendo, ninguém o prepara suficientemente para entender que o protagonismo pode simplesmente mudar de lugar.
Cristiano não precisa deixar de ser importante porque eventualmente não jogará os 90 minutos. Pode continuar sendo decisivo mesmo atuando por 30 minutos, ou pelo tempo que a estratégia da equipe exigir. E pode ser importante de outras maneiras. Ajudando quem está chegando. Protegendo o ambiente. Transferindo conhecimento. Fortalecendo seus sucessores. Usando a representatividade construída durante mais de duas décadas para inspirar uma nova geração. O protagonismo que antes estava no gol pode passar para o exemplo e para outro tipo de liderança.
E existe também o outro lado: o aprendizado de quem comanda. Treinar grandes jogadores exige autoridade. Treinar grandes ídolos exige também sensibilidade. Isso não significa permitir que o jogador escolha quando joga ou quanto joga. A decisão técnica precisa continuar pertencendo ao treinador. Mas liderança não é apenas decidir. É saber como comunicar a decisão. Porque a mesma mensagem pode estabelecer autoridade ou produzir confronto, dependendo da maneira, do momento e do ambiente em que é transmitida.
No futebol, aprendemos muito sobre como chegar. Pouco sobre como sair. Muito sobre conquistar espaço. Pouco sobre como cedê-lo. Muito sobre liderança. Pouco sobre a hora em que a própria liderança precisa assumir uma nova forma.
Talvez por isso essa reflexão seja muito maior do que Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo. Porque, cedo ou tarde, todo grande comandante precisará administrar importantes personalidades. E todo grande ídolo precisará compreender que sua importância não pode depender exclusivamente do espaço que ocupa dentro de campo.
Talvez a verdadeira grandeza esteja justamente em compreender que perder protagonismo não significa perder importância. Às vezes, significa aprender a ocupar um novo lugar e descobrir que é possível sentir o mesmo prazer em continuar sendo importante, mas de outra forma.
Fábio Mello
Pós-graduado em Administração e Marketing Esportivo
Ex-atleta profissional de futebol
Autor do livro Jogando de Terno – Dos Campos para os Negócios
(Editora Onze)
