A CONVICÇÃO QUE VEM DA ARQUIBANCADA: ENTRE O ÍDOLO E A INSTITUIÇÃO

Redação

setembro 19, 2026

A convicção da arquibancada nem sempre encontra confirmação dentro de campo. E isso não significa que o torcedor esteja errado por acreditar ou desconfiar. Significa apenas que o futebol continua sendo futebol: imprevisível, emocional e incapaz de oferecer garantias.

Os quatro grandes clubes de São Paulo talvez estejam nos oferecendo exemplos diferentes, e preocupantes, dessa realidade.

No Corinthians, a pressão da torcida pela renovação de Memphis Depay foi enorme. Mesmo diante de uma situação financeira que recomendava cautela. Mesmo sabendo das dificuldades do clube para assumir um compromisso desse tamanho. A arquibancada fez sua escolha: primeiro o resultado. Depois discutimos a conta.

Memphis ficou. E justamente em um dos momentos mais importantes da temporada, o jogador que deveria decidir desperdiçou um pênalti decisivo. Não se trata de responsabilizá-lo pela eliminação. Trata-se de lembrar algo que a emoção frequentemente nos faz esquecer: nenhum jogador oferece garantia de resultado. Mas todo contrato oferece garantia de custo.

Talvez esteja aí uma das grandes contradições do futebol. O torcedor pode exigir o craque. Pode pressionar pela contratação. Pode pedir a renovação. Faz parte da paixão. Mas quem administra precisa ter coragem para dizer não quando a conta não fecha.

Porque paixão não precisa de fluxo de caixa. Gestão precisa.

No Palmeiras, o roteiro foi inverso. Carlos Miguel chegou cercado de desconfiança. Questionado por parte da torcida, precisava provar que poderia ocupar uma posição de enorme responsabilidade. Vieram os pênaltis, as defesas, a classificação. E nasceu o herói.

Mas o futebol também é cruel com seus heróis. Aquela noite não encerrou as dúvidas. Apenas comprou tempo. No próximo erro, Carlos Miguel provavelmente será questionado novamente. No futebol atual, o herói não conquista mais um lugar. Conquista o direito de continuar provando.

No São Paulo, a discussão é ainda mais profunda. Estamos falando de um clube que durante décadas foi referência de estrutura, organização e gestão no futebol brasileiro. Hoje, algumas de suas principais lideranças dentro de campo precisam assumir responsabilidades que deveriam ser da própria instituição.

Rafael, Luciano e Calleri colocaram recursos próprios à disposição para ajudar companheiros diante dos atrasos. É um gesto enorme de liderança, mas também um retrato preocupante da situação do clube. Quando jogadores precisam ajudar financeiramente um vestiário, quem está exercendo o papel da instituição?

Talvez alguns dos maiores líderes do São Paulo neste momento não estejam ocupando cargos. Estejam vestindo chuteiras.

E então chegamos ao caso que considero mais inquietante: o Santos. O clube de Pelé. Uma das camisas mais importantes da história do futebol mundial. Uma instituição com enormes dificuldades financeiras que continua fazendo movimentos e assumindo compromissos incompatíveis com a segurança que suas contas deveriam permitir. Contrata. Investe. Aposta. E espera que o futebol resolva.

Mas o futebol não oferece garantias. A dívida, sim.

Quando uma instituição fragilizada financeiramente continua aumentando sua exposição na esperança de que o resultado esportivo resolva o problema, precisamos perguntar: onde termina a ousadia e começa a irresponsabilidade?

E existe uma pergunta ainda mais incômoda. Se essa conta se tornar impagável, quem ficará com o prejuízo? O torcedor? O credor? A instituição? Sua história? Os profissionais e estatutários que absurdamente tomaram as decisões? E quem poderá se beneficiar de um Santos ainda mais fragilizado quando chegar o momento de discutir uma profunda reestruturação de seu modelo?

Talvez os quatro clubes estejam nos mostrando faces diferentes da mesma realidade. O Corinthians mostra a força, e também o risco, da convicção da arquibancada. Carlos Miguel mostra como um “questionado” pode se transformar em herói em algumas cobranças e voltar a ser julgado no jogo seguinte. Os líderes do São Paulo mostram que liderança não depende de cargo, braçadeira ou gol. E o Santos nos obriga a discutir até onde a paixão pelo resultado pode justificar decisões que comprometem o futuro.

O torcedor tem o direito de sonhar, acreditar e até se contradizer. Quem administra, não.

Porque a arquibancada vive o próximo jogo. O dirigente precisa proteger os próximos anos.

A responsabilidade fica, porque no fim, o futebol sempre encontrará alguém para comemorar quando a bola entrar.

A pergunta é: quem estará lá para pagar a conta quando a bola não entrar?

Fábio Mello
Pós Graduado em Administração e Marketing Esportivo
Ex-atleta de futebol profissional
Autor do livro: Jogando de Terno – Dos Campos para os negócios.