O futebol como política de Estado: além das quatro linhas

Redação

outubro 26, 2026

O Brasil aprendeu a exportar talentos para o mundo, mas ainda precisa transformar a potência do futebol em desenvolvimento para sua própria população. Muito além do esporte, o futebol é cultura, identidade, inclusão social e uma cadeia produtiva capaz de gerar empregos, atrair investimentos e movimentar diversos setores da economia, como turismo, educação, comércio, hotelaria, transporte, tecnologia e entretenimento. Sua dimensão econômica já foi estimada em mais de R$ 60 bilhões, demonstrando um potencial que exige planejamento estratégico e políticas públicas estruturantes.

Uma política de Estado, integrada entre União, estados e municípios, deve conectar as dimensões cultural, social e econômica do futebol, com objetivos, financiamento, responsabilidades e indicadores de resultados. Enquanto o governo federal pode estabelecer diretrizes e mecanismos de fomento, os estados podem articular polos regionais de desenvolvimento e formação profissional, e os municípios podem integrar clubes e equipamentos esportivos ao planejamento urbano, à educação e à economia local. Estádios e centros de treinamento precisam ser concebidos como estruturas multifuncionais, capazes de estimular hotéis, centros comerciais, restaurantes, eventos e empreendimentos imobiliários, por meio de concessões e parcerias público-privadas (PPPs), valorizando os territórios e gerando novas receitas, sem deixar de beneficiar as comunidades locais.

Outro eixo fundamental é a formação profissional e a empregabilidade. A integração entre clubes, universidades, escolas técnicas e empresas pode ampliar oportunidades em gestão, finanças, saúde, tecnologia, comunicação, marketing, infraestrutura e operações esportivas. O futebol deve oferecer perspectivas não apenas para quem sonha em ser atleta, mas também para quem deseja trabalhar, empreender e inovar nessa indústria. Paralelamente, incentivos fiscais e mecanismos de financiamento, observadas as regras legais de cada esfera de governo, podem mobilizar capital privado para projetos de formação esportiva, inclusão social, modernização de instalações e desenvolvimento das categorias de base. Para isso, são indispensáveis governança, transparência, metas verificáveis e avaliação dos resultados sociais e econômicos.

O Brasil não precisa escolher entre o futebol como paixão e o futebol como negócio: precisa integrá-los a uma estratégia permanente de desenvolvimento. Essa agenda exige cooperação entre poder público, clubes, federações, investidores, empresas, universidades e organizações sociais, com segurança jurídica, gestão profissional e visão de longo prazo, para além dos ciclos eleitorais. O desafio é transformar investimentos no futebol em legado econômico, social e humano, ampliando oportunidades, fortalecendo comunidades e impulsionando economias locais. A bola já tem força para mobilizar o país. Falta transformar essa força em uma política de Estado capaz de desenvolver o Brasil para além das quatro linhas.

Ass: Luís Fernando Pessôa