Recentemente, Abel Ferreira afirmou que “o futebol está doente”.
Uma frase forte. Incômoda. Mas necessária.
Tenho grande admiração por Abel. Pelo profissional, pela competência, pela história construída no Brasil e, principalmente, pela consistência de suas convicções.
E talvez sua declaração tenha ainda mais força justamente porque vem de alguém que vive intensamente esse ambiente.
Concordo com ele. Mas vou além.
Será que o futebol está doente ou somos nós que estamos adoecendo o futebol?
Mesmo profissionais sérios, competentes e vencedores estão sujeitos às emoções desse ambiente. Eu me incluo nisso.
Quem vive o futebol sabe o quanto é difícil permanecer racional o tempo inteiro diante da pressão, da cobrança, da exposição e da necessidade permanente de resultado.
Todos podemos exagerar.
Todos podemos errar.
Todos podemos reagir.
O problema começa quando o exagero deixa de ser um episódio e passa a fazer parte da cultura.
E existe algo que talvez seja pouco percebido por quem olha apenas de fora: quem trabalha de forma séria no futebol sofre ainda mais ao ver o ambiente contaminado pelo ódio.

Sofre ao ver a análise sendo substituída pelo ataque.
A cobrança pela agressão.
A rivalidade pela intolerância.
E a paixão pela obrigação de vencer.
Nos últimos tempos, algumas situações têm me feito refletir ainda mais.
Quando um dos principais jogadores brasileiros se machuca na Copa do Mindo, e parte dos próprios brasileiros comemora sua ausência na expectativa de que a Seleção possa melhorar, alguma coisa está errada.
Quando uma criança vai ao estádio, pede a camisa de um ídolo que veste a camisa adversária e precisa deixar o local sob escolta policial por causa da reação de adultos, alguma coisa está muito errada.
No mesmo fim de semana, as duas semifinais da Série D também foram marcadas por episódios de confusão. Em Gama x ASA, uma expulsão desencadeou agressões e uma confusão generalizada. Em ABC x Uberlândia, integrantes de comissão técnica, dirigentes e seguranças se envolveram em tumulto no acesso aos vestiários.
Mudam os clubes.
Mudam as divisões.
Mudam os estádios.
Mudam os protagonistas.
O comportamento se repete.
Portanto, não estamos falando de Série A, B, C ou D. Não estamos falando apenas de grandes torcidas, clássicos ou jogos decisivos.
Estamos falando de pessoas.
O futebol sempre foi paixão. Sempre teve rivalidade. Provocação. Pressão. Cobrança. Perder sempre doeu, mas, em algum momento, transformamos o direito de torcer na obrigação de vencer.
A derrota deixou de ser uma possibilidade natural do esporte. Virou fracasso.
O adversário deixou de ser alguém que precisamos superar. Virou inimigo.
O treinador que perde não pode simplesmente ter errado. Precisa ser incompetente.
O jogador que falha não pode simplesmente ter falhado. Precisa ser massacrado.
E uma criança não pode mais simplesmente admirar um grande jogador. Precisa escolher um lado.
Talvez seja justamente aí que a doença comece a aparecer.
Tenho defendido nas minhas últimas reflexões a necessidade de profissionalizarmos cada vez mais o futebol.
Gestão. Processos. Transparência. Formação. Responsabilidade.
Tudo isso é indispensável, mas talvez exista algo anterior.
Precisamos reaprender a conviver com a derrota. Difícil? Muito.
Mas trata-se de uma necessidade urgente. O esporte pressupõe vencedores e derrotados.
Não existe campeonato em que todos serão campeões.
Não existe treinador que vencerá todos os jogos.
Não existe jogador que acertará sempre.
Não existe dirigente que tomará apenas boas decisões.
E não existe gestão sem erro.

Quando retiramos do futebol o direito de perder, criamos um ambiente em que todos passam a trabalhar sob uma pressão cada vez mais difícil de administrar.
E as redes sociais potencializaram esse processo.
A indignação virou conteúdo.
A agressividade gera engajamento.
A frase mais dura circula mais.
O ataque ganha repercussão.
E, pouco a pouco, aquilo que sempre chamamos de paixão começa a se confundir com intolerância.
Não existem inocentes nessa discussão.
Jogadores, treinadores, dirigentes, empresários, jornalistas, influenciadores, instituições e torcedores fazem parte do mesmo ambiente.
Em diferentes proporções, todos ajudamos a construir a cultura do futebol que temos hoje.
Por isso, talvez seja mais importante assumir responsabilidades do que simplesmente procurar culpados.
Quem trabalha no futebol precisa reconhecer seus excessos.
O futebol não precisa de menos paixão. Precisa de mais responsabilidade sobre aquilo que fazemos em nome dela.
Abel disse que o futebol está doente.
Talvez esteja.
Mas o futebol não invade vestiários.
O futebol não agride adversários.
O futebol não comemora lesões.
O futebol não hostiliza uma criança porque ela admira um jogador do outro time.
As pessoas fazem isso.
E quem trabalha seriamente nesse ambiente também sofre ao assistir ao futebol que ama ser contaminado por comportamentos que nada têm a ver com aquilo que o tornou uma das maiores paixões do nosso país.
O momento exige uma reflexão de todos nós. Não para diminuir a paixão. Mas para protegê-la.
Porque, no fim, talvez a pergunta não seja apenas se o futebol está doente.
A pergunta é: o que cada um de nós está fazendo para não adoecê-lo ainda mais?
Fábio Mello é Pós Graduado em Administração e Marketing Esportivo, Ex Jogador Profissional de Futebol e Autor do Livro Jogando de Terno – Dos Campos para os Negócios (Onze Cultural).
