O futebol brasileiro é mestre em testar convicções, mas o que se vê hoje em São Januário atravessa a fronteira do debate tático para entrar no campo da crise de identidade. Fernando Diniz, o arquiteto de um estilo que encanta pela coragem e desespera pela vulnerabilidade, vive seu momento mais crítico no Vasco. Os números não são apenas frios; eles são acusatórios: 21 derrotas em 51 jogos. Para um clube que tenta se reencontrar como potência, perder 41% das vezes que entra em campo sob o mesmo comando é um fardo que nenhuma retórica sobre “posse de bola” consegue aliviar.
O cenário em fevereiro de 2026 é de uma pressão sufocante. A derrota recente para o Bahia em casa e o empate amargo com o Madureira no Carioca transformaram o ambiente na Colina em um caldeirão de insatisfação. Vaias a Philippe Coutinho e gritos de “burro” para o treinador mostram que a lua de mel com a ideia de um “Vasco propositivo” acabou.
O Fator Casa: Quando São Januário Deixou de Ser um Trunfo
O que mais assusta o torcedor não é apenas o revés, mas a perda da mística de seu território. Historicamente, a “Colina Histórica” era o lugar onde o Vasco garantia sua sobrevivência ou suas glórias. Hoje, os dados mostram um declínio acentuado e melancólico da força cruzmaltina como mandante.
Desde o brilhante 3º lugar em 2011 (ano do título da Copa do Brasil), o desempenho doméstico do Vasco na Série A entrou em uma espiral de mediocridade. Confira o ranking do clube como mandante nas últimas edições da elite:
| Ano | Posição como Mandante (Série A) | Observação |
| 2025 | 16º | Pior marca sob a era SAF / Diniz |
| 2024 | 10º | Estabilidade momentânea |
| 2023 | 12º | Luta contra o rebaixamento |
| 2020 | 16º | Queda para a Série B |
| 2019 | 15º | Campanha irregular |
| 2018 | 15º | Risco de queda até o fim |
| 2017 | 9º | Única vez no Top 10 desde 2011 |
| 2015 | 20º | Lanterna e rebaixamento |
| 2011 | 3º | O auge do “Trem Bala” |
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Nota: Em 2014, 2016, 2021 e 2022, o clube disputou a Série B, o que por si só já evidencia a instabilidade institucional do período.
O Labirinto de Diniz
A insistência de Diniz em saídas curtas sob pressão e o deslocamento de peças criativas — como Coutinho jogando quase como um volante construtor — têm gerado um curto-circuito. O time tem a bola, mas não tem o controle. Tem o volume, mas não tem a vitória.
O Vasco de 2026 parece preso em um ciclo: investe, troca o discurso, mas mantém a fragilidade defensiva. Com um aproveitamento de pontos que flutua perigosamente perto da zona de rebaixamento no início deste Brasileiro, a diretoria se vê no dilema clássico: bancar o projeto a longo prazo de um técnico autoral ou ceder ao clamor de uma arquibancada que já não aguenta mais ver sua casa ser saqueada por visitantes.

Se São Januário não voltar a ser um forte, e se as derrotas continuarem superando a evolução teórica, o “Dinizismo” no Rio corre o risco de ser lembrado apenas como mais uma nota de rodapé em uma reconstrução que insiste em não terminar.
Philippe Coutinho: problema ou solução?
A situação de Philippe Coutinho sob o comando de Fernando Diniz revela um paradoxo estatístico: enquanto o meia apresenta números individuais de destaque e uma evolução física notável, ele se tornou um dos principais alvos da torcida e de ídolos do clube, como Edmundo, devido à falta de resultados coletivos.
1. Produtividade Ofensiva em 2026
Apesar das críticas sobre uma suposta “apatia”, o início de temporada de Coutinho em 2026 é estatisticamente superior ao ano anterior. Diniz adiantou o posicionamento do meia para deixá-lo mais próximo da área, o que refletiu nos seguintes dados:
- Participações diretas: 4 gols em 5 jogos (3 gols e 1 assistência).
- Eficiência: Média de uma participação direta em gol a cada 105 minutos.
- Criação: É o líder do elenco em oportunidades criadas por jogo (3,33) e passes chave.
2. O Impacto do “Dinizismo” no Físico
Um dos pontos mais defendidos por Fernando Diniz é a melhora na condição atlética de Coutinho. Segundo o treinador, a “química instantânea” entre os dois permitiu que o jogador:
- Reduzisse drasticamente a frequência no departamento médico.
- Alcançasse em 2025 o recorde de partidas em uma única temporada em toda a sua carreira (56 jogos).
- Se tornasse um dos atletas que mais percorre distâncias nos treinamentos, contrariando a percepção de falta de intensidade.

3. A Crítica e o Contraste Coletivo
O descontentamento da torcida e de analistas, como Edmundo, reside no contraste entre o custo do jogador e a falta de “peso” em jogos decisivos de 2025 e no início de 2026.
- O argumento das críticas: Críticos apontam que Coutinho, por vezes, “não produz na construção” e que o Vasco parece “jogar com um a menos” na fase defensiva, apesar dos números de ataque.
- O dilema tático: Diniz admite que em jogos travados recua o meia para a construção, mas a torcida reclama que isso o afasta do gol e sobrecarrega o sistema defensivo, que já sofreu 21 derrotas em 51 jogos sob o atual comando.
Resumo Estatístico (Era Diniz)
| Categoria | Desempenho (Média/Total) |
| Nota Sofascore | 7.24 (2ª maior do elenco) |
| Acerto no Passe | 88% |
| Gols em 2025 | 11 gols |
| Gols em 2026 | 3 gols (em 6 jogos até o momento) |
Conclusão: Os números sugerem que Coutinho não é o problema técnico do Vasco, mas sim a face visível de um sistema que, embora potencialize suas virtudes individuais, falha em transformar essa posse de bola e produtividade em vitórias consistentes.

