Entre o chiclete, a frieza e a teimosia

Pedro Chiaverini

junho 30, 2026

O brasileiro nasceu para sofrer. Sofre no amor, sofre no ônibus, sofre na fila, sofre no fim do mês. E, sobretudo, sofre diante de uma bola.

Nenhum povo do mundo transforma uma simples partida de futebol numa tragédia grega como nós.

Contra o Japão, não foi diferente.

Enquanto milhões de brasileiros envelheciam diante da televisão, Carlo Ancelotti mascava um chiclete.

E jamais um chiclete pareceu tão insolente.

Vinícius Júnior comemora gol pela Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026.
Vini Jr. vive sua melhor Copa do Mundo e se consolida como o principal nome da Seleção Brasileira.

O Brasil inteiro queimava por dentro. As mãos suavam. O coração tropeçava no peito. Havia quem aprendesse italiano em cinco minutos apenas para xingar Carletto. O velho treinador permanecia imóvel, quase indiferente ao caos.

Mas a História costuma desconfiar dos homens que gritam.

Os que realmente mudam o destino quase sempre falam baixo.

Ancelotti chegou ao Brasil cercado por uma dúvida que só existe neste país: como um estrangeiro ousaria ensinar futebol ao país de Pelé?

Esqueceram-se de um detalhe.

A bola não tem passaporte.

Cinco vezes campeão da Champions League, ele jamais venceu porque era o mais apaixonado. Venceu porque era o mais lúcido. Porque, quando o desespero toma conta de todos, ele continua enxergando o jogo.

Foi assim outra vez.

Ninguém sabe se a mudança nasceu de sua cabeça ou da conversa silenciosa com seus auxiliares. Pouco importa. As grandes decisões da História raramente revelam todos os seus autores. Revelam apenas quem assume a responsabilidade.

Martinelli deixou de ser ponta.

Transformou-se em meio-campista.

Virou um camisa 8 perdido entre linhas invisíveis.

E foi justamente naquele pedaço de campo onde ninguém o esperava que apareceu o gol da classificação.

Não foi apenas uma substituição.

Foi uma declaração de princípios.

Ancelotti parece dizer ao Brasil que o futebol não se ganha apenas com talento. Ganha-se com inteligência. Com paciência. Com coragem para contrariar o óbvio.

Durante décadas fomos um país obscenamente rico em craques.

Nossos campos produziam gênios como quem produz capim.

Hoje já não.

Vivemos um tempo em que imploramos pela última centelha de um craque que se aproxima do fim e depositamos nossas esperanças num menino que ainda escreve as primeiras linhas da própria carreira.

As vacas, que durante tanto tempo foram gordas, emagreceram.

A camisa continua pesando toneladas.

Os ombros que a sustentam já não são os mesmos.

Talvez por isso exista uma certa poesia na presença daquele italiano de sobrancelhas eternamente arqueadas.

Ele não promete milagres.

Não vende sonhos.

Não faz discursos.

Apenas trabalha.

Há uma elegância quase renascentista em sua calma.

Enquanto o brasileiro vive cada lance como se estivesse diante do Juízo Final, Ancelotti responde com um chiclete.

E talvez seja exatamente essa a virtude que nos faltava.

A Seleção Brasileira sempre teve talento de sobra.

Hoje talvez precise, antes de tudo, aprender a respirar.

Ainda não somos os favoritos.

Ainda estamos longe daquele Brasil que fazia o mundo inteiro entrar em campo derrotado.

Mas existe uma diferença.

Pela primeira vez em muitos anos, parece haver alguém no banco de reservas que não se desespera quando o destino resolve nos testar.

Porque certas Copas não são conquistadas pelos que jogam melhor.

São conquistadas pelos que permanecem de pé quando todos os outros já perderam a alma.

E Carlo Ancelotti, até aqui, continua de pé.

Com um chiclete na boca.

E uma nação inteira escondida atrás de sua aparente indiferença.