O técnico Vagner Mancini, que comanda o Red Bull Bragantino atualmente, concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal dos Sports, onde avaliou sua carreira e projetou o futuro do cargo de treinadores no Brasil com a chegada de estrangeiros.

Qual sua expectativa e avaliação do trabalho atual?
“O trabalho está fluindo, cheguei com minha equipe em um momento delicado, o clube precisava se distanciar do Z4 no Brasileiro de 2025, conseguimos encaixar três vitórias seguidas, terminamos o ano em alta e iniciamos 2026 da mesma forma. Remodelamos um pouco a equipe, trouxemos peças pontuais e vivemos agora um excelente momento”.
O que esse seu trabalho no Red Bull tem de diferente nos seus outros trabalhos anteriores?
VM: Cada trabalho tem sua história e sua característica. O RedBull tem um DNA diferente dos outros clubes, aqui há uma exigência por formação de atletas, times jovens e agressivos em campo, os meus times tem isso. Sou um admirador do futebol equilibrado, organizado, porém ofensivo.
Você já trabalhou em clubes de todos os cantos do pais e agora trabalha num clube empresa. Qual a diferença na pratica de trabalhar como treinador num clube associativo e num clube empresa?
VM: Aqui temos grandes profissionais, todos contratados, em todas as áreas, isso torna o ambiente saudável, diferente por exemplo de um clube tradicional, onde muitos que trabalham no dia a dia são da cidade e carregam em si um peso, uma pressão e muito maior.
Que método do mundo corporativo, inspirado agora no Red Bull, você usa no seu cotidiano como treinador e gestor de futebol?
VM: Cumpro 8 horas de trabalho no clube, uso a estrutura a favor das minhas ideias, meus conceitos, minha visão. Penso que é o mínimo que devo fazer, entregar trabalho, resultado e ao mesmo tempo que aprendo com o mundo corporativo também passo experiência de ex-atleta e treinador. Penso que essa troca sempre será saudável para ambos.

Relembre sua passagem pelo futebol carioca, quando comandou Vasco e Botafogo. Como você vê esses clubes hoje?
VM: Foram momentos diferentes, passagens que poderiam ter sido melhores. Assumi o Vasco em 2010, foi uma passagem curta, vínhamos muito bem na Taça Guanabara, goleamos o Botafogo 6 a 0 na fase inicial, chegamos a final e perdemos do mesmo Botafogo. Isso frustrou a todos. No Botafogo, em 2014, encontrei um clube todo desorganizado, o próprio presidente se afastou, vivíamos uma situação administrativa muito ruim. Em campo o time lutou muito mo Brasileiro, mas acabou rebaixado.
Sua contratação pelo Red Bull, com aval de Klopp, surpreendeu muita gente, mas nao quem o acompanha e te conhece de perto. Tanto que você renovou contrato recentemente com o clube. Relembra pra gente como foi o papo com o Klopp, se vocês se comunicam com frequência, o que ele acha do futebol brasileiro etc.
VM: Quando cheguei ao RedBull, o objetivo era somar pontos para se distanciar do Z4. Após esse primeiro objetivo conquistado, sentamos pra conversar sobre 2026. Tudo foi feito com muita maturidade e equilíbrio.Já tive reuniões com o Klopp, seus auxiliares já estiveram aqui no Brasil para troca de informações. O que posso dizer é que houve uma empatia muito grande rapidamente. A relação é muito franca, verdadeira. Temos muita coisa em comum.

Qual vc avalia como melhor trabalho na carreira e qual poderia ter rendido mais?
VM: Cada trabalho tem seu foco, seu objetivo. Já fiz bons trabalhos, conquistei títulos, acessos, como também já fui rebaixado, assim é o futebol, feito de vitórias e derrotas.Na minha opinião, o trabalho do treinador não fica restrito somente ao campo, aos resultados, deve ser maior, muito mais amplo. Por exemplo, meu trabalho tem que melhorar o atleta, mas também o ser humano. Tem que melhorar os profissionais que trabalham no clube, em todas as áreas, tem que gerar receitas pro clube, ganhos desportivos, ganhos econômicos. Revelar jogadores. Enfim!
Como jogador, qual nota você se da? Teria vaga hoje nos grandes clubes?
VM: Como atleta eu tinha capacidade para ir mais longe. Joguei numa época onde o futebol era mais lento, porém com mais plástica. Não gosto de comparações. Estou satisfeito com o que fiz dentro de campo e com o que faço como treinador.
Qual sua opinião de irmos para uma Copa do Mundo, pela primeira vez, com um técnico estrangeiro?
VM: Pra mim, treinador tem que ser competente. Se ele é italiano, brasileiro ou de qualquer outra nacionalidade pouco importa.
Esse ano completa 2 décadas que você disputou a Libertadores pelo Paulista, após conquistar o título da Copa do Brasil no ano anterior, sobre o Fluminense. Relembre para o JS as historias daquele trabalho histórico
VM: A Conquista do Paulista frente ao Fluminense foi histórica. Ganhar uma Copa do Brasil eliminando seis times de série A sempre será inédita. Fizemos grandes jogos, vencemos adversários gigantes com méritos. O próprio Fluminense na final era dirigido por Abel Braga, um time recheado de craques. Disputar uma Libertadores então nem se fala. O Paulista venceu o River Plate em Jundiaí, ou seja, coisa que talvez nunca mais volte a acontecer. Foi uma sensação maravilhosa, que jamais será esquecida pela cidade de Jundiaí.

Você atuou com Denner na Portuguesa. O que esse menino teria se tornado, caso nao tivesse acontecido aquela tragedia?
VM: O Denner era diferente! Uma velocidade misturada com técnica, misturada com mudança de direção, misturada com genialidade. Ele impressionava a todos, teria um futuro brilhante, jogaria Copa do Mundo, atuaria na Europa com toda certeza. Porém o destino interrompeu sua trajetória. Mesmo atuando pouco, ele deixou sua marca.
Como presidente da Federação Brasileira de Treinadores de Futebol, como você avalia a questão dos treinadores estrangeiros no Brasil e o fato de brasileiros nao terem chances no exterior. Acha que isso acontece so por conta as licenças ou há outros fatores?
VM: Não sou contra a vinda de treinadores estrangeiros para o Brasil. Sou contra a restrição de trabalharmos no exterior, isso aconteceu, fomos impedidos de trabalhar lá fora, vou explicar para que todos saibam.Tínhamos mercado no exterior, mundo árabe, Japão, Coreia, Países Africanos, América Latina, Portugal e alguns outros. O treinador brasileiro era adorado nos países de língua árabe, porém houve uma manobra que pouca gente sabe.Quando Michel Platini assumiu a UEFA, se deparou com muitos treinadores, principalmente do leste europeu desempregados, inteligentemente foi a vários países da Ásia menor e do mundo árabe e selou um acordo que para trabalhar nesses países deveriam ter a licença PRO da UEFA, isso fez com que perdêssemos esses mercados pois não tínhamos como fazer o curso. A CBF quase 10 anos depois começou a ministrar os cursos no Brasil, nesse período além de perder o mercado lá fora, ainda vimos a vinda de muitos estrangeiros para o Brasil.

