JS Business com Fabio Mello: Depois do apito final

Fabio Mello

fevereiro 12, 2026

Emoção Demais, Análise de Menos

Nessas primeiras colunas, compartilho percepções construídas a partir das relações que vivo e lidero no futebol. E há algo que se repete de forma preocupante: a entrevista pós-jogo transformada em extensão do confronto. O apito encerra a partida, mas não encerra a tensão.

O treinador passa a semana inteira tomando decisões, ajustando estratégias, gerindo expectativas. O jogo termina e, sem tempo para processar o que aconteceu, ele troca o campo pelo microfone. Não há pausa. Não há revisão. Exige-se análise quando ainda há emoção.

Do outro lado, a pressa também domina. A busca por declarações fortes comprime perguntas complexas em segundos. Em uma realidade em que poucos acompanham o dia a dia dos treinos, a profundidade cede espaço ao questionamento genérico — muitas vezes carregado de provocação.

Cada treinador reage conforme sua personalidade. E os estilos ficam cada vez mais evidentes. As aulas e os embates filosóficos de Fernando Diniz, a firmeza e o tom de Abel Ferreira, o conhecimento técnico e tático do jovem e vitorioso Felipe Luís, a postura educada e equilibrada de Vagner Mancini e Dorival Júnior, representando a velha guarda de técnicos brasileiros, e a comunicação clara e transparente vista no São Paulo FC de Hernán Crespo. Estilos diferentes. A mesma exposição.

E isso acontece em todas as divisões. Da Série A à Série D. A lógica é simples: GANHAR. Como ouvi em conversa recente com Mario Celso Petraglia, presidente do Athletico Paranaense: o torcedor gosta de futebol, adora o clube, mas ama a VITÓRIA.

O efeito é previsível. Respostas defensivas. Ruídos. Frases recortadas que inflamam mais do que explicam. A coletiva deixa de esclarecer e passa a alimentar julgamento.

Vale a reflexão: a análise precisa nascer no calor do apito final? Não seria mais produtivo criar espaço para a pausa, para a revisão, para a explicação construída com mais clareza? Emoção faz parte do jogo. Explicação exige tempo. Talvez, a manhã do dia seguinte seja uma opção.

No fim, todos ganhariam: o treinador, respeitado em seu tempo de análise; a imprensa, com conteúdo mais qualificado; e o torcedor, com entendimento em vez de tensão.

O futebol é intensidade e paixão, mas compreender o jogo exige pausa e reflexão.

Fabio Mello
• Ex-jogador profissional
• Pós-graduado em Administração e Marketing Esportivo
• Agente FIFA/CBF
• Idealizador do curso Uma visão global sobre gestão de clubes, negócios e carreiras, em parceria com a ESPM
• Autor do livro Jogando de Terno – Dos Campos para os Negócios