DA ARQUIBANCADA AO PARLAMENTO: LEI PREVÊ POSTOS DE APOIO ÀS MULHERES VÍTIMAS DE ASSÉDIO EM ESTÁDIOS DO RIO

Redação

junho 5, 2026

Lei prevê postos avançados de atendimento às vítimas em arenas esportivas, enquanto comissão da Alerj quer verificar se a medida foi implementada no Maracanã.

“Muitas das vezes nós, mulheres, só precisamos ter para onde correr”. O relato da Marília Onaindia, de 30 anos, torcedora vítima de assédio no Maracanã, expõe uma realidade ainda difícil de mensurar em números no Rio de Janeiro: a violência contra mulheres dentro dos estádios. A lei 10.773/25, da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), prevê a instalação de postos avançados de atendimento às vítimas de violência de gênero nesses espaços e passa a ser discutida pela comissão do Cumpra-se do Parlamento, que vai verificar a implementação da medida no estádio carioca.

“Infelizmente, já passei por situações de assédio no Maracanã, mas a que mais me marcou foi quando eu estava sozinha e três homens começaram a invadir o meu espaço pessoal. Como eu não estava acompanhada, fiquei com medo de falar algo. Por isso a importância desses postos de apoio de acolhimento às mulheres”, completa Marília, torcedora do Fluminense e frequentadora do estádio desde criança.

Segundo o autor da lei e presidente do colegiado, deputado Carlos Minc (PSB), a comissão articulou uma reunião com representantes do Programa Patrulha Maria da Penha, do Batalhão Especializado em Policiamento em Estádios (Bepe) e do consórcio responsável pela gestão do Maracanã para discutir a implementação dessa norma.

“O próximo passo é fazer a vistoria e verificar exatamente onde está esse posto avançado e a efetivação desse serviço. Essa foi a principal demanda das mulheres: para que as vítimas de uma violência de gênero não tenham que sair do estádio para prestar queixa. Isso não acaba com a violência, é claro, mas é um mecanismo de dissuasão”, destaca Minc.

Às vésperas da Copa do Mundo Feminina da Fifa de 2027, que será sediada no Brasil, o debate sobre a segurança feminina nos estádios ganha ainda mais relevância. Com a ampliação da presença feminina nos estádios, a lei reforça a importância de medidas efetivas no acolhimento e enfrentamento à violência de gênero nesses locais.

Responsabilidade institucional

Uma pesquisa do projeto “Mulheres & Futebol”, divulgada em 2024, mostra que a presença feminina nas arquibancadas não é mais uma exceção: uma em cada três mulheres frequenta regularmente os estádios. Ainda assim, a sensação de segurança nem sempre é parte do time titular: 40% das mulheres entrevistadas declaram que a insegurança é o principal impedimento para frequentar as arquibancadas.

Antes de chegar ao plenário da Alerj, a medida nasceu das experiências de mulheres que frequentam estádios e arenas esportivas no estado. A demanda foi apresentada ao autor da lei pelo Movimento Feminino de Arquibancada e aprovada após votação na Casa. A nova legislação altera a Lei 1.886/91, que, além da obrigatoriedade de postos avançados de atendimento, também endurece as penalidades previstas na legislação, com a advertência e multa indo de R$ 22.686,50 (5 mil UFIR-RJ) até R$ 90.746,00 (20 mil UFIR-RJ) em caso de reincidência, incluindo interdição do estabelecimento por 30 dias.

Vozes femininas nas arquibancadas

Integrante do Movimento Feminino de Arquibancada, Carla Ambrosio acredita que a presença de protocolos e punições da legislação podem ajudar a transformar a cultura das arquibancadas. Além disso, mostra que determinadas atitudes não serão mais toleradas e permite que as torcedoras vivam a emoção dos estádios com mais liberdade, pertencimento e segurança.

“O maior desconforto vem da sensação de vulnerabilidade, intimidação, olhares invasivos e comentários machistas, inclusive o medo de circular no entorno do estádio sozinha. Muitas vezes precisamos estar em estado de alerta para conseguir viver algo que deveria ser lazer e paixão pelo futebol. E, durante muito tempo, esses comportamentos violentos foram naturalizados dentro do futebol. Agora, com a existência de regras claras, fiscalização e consequências reais, a mensagem muda: a arquibancada precisa ser um espaço coletivo e respeitoso para todo mundo”, desabafa Carla.

Debate além do futebol

Mais do que ampliar punições e implementar medidas de amparo, o avanço da legislação legitima o direito das torcedoras de ocuparem esses espaços com garantia de respeito e pertencimento. A norma também assegura e, principalmente, consolida o entendimento de que casos de violência, ofensas, exigências ou tentativas de intimidação não ficarão impunes.

“Infelizmente, nos grandes jogos e estádios, ainda há muita expressão de machismo e de violência. Com essa atualização da lei, ao incluir especificamente as torcedoras, as punições para quem pratica ou consente com práticas de violência contra mulheres serão ampliadas”, completa Minc.