Copa do Mundo é uma época famosa por suas perguntas desconfortáveis, algumas sem resposta.
Por que o craque perdeu o pênalti?
Por que não chegamos de novo na final, e eles sim?
E, mais importante: quem é “Balbina tia do Valtão”, que liderou por meses o bolão da família?
Sou conhecido por delirar com placares vastos, ditos “bailarinos”, e com isso implodir minhas chances no bolão. Todo e qualquer bolão, de 1990 até ontem.
Por isso vi me arrepiarem as vibrissas (penugem do nariz, diz o Aurélio) durante a Copa do Mundo, outro dia, ao conferir minhas apostas.

Era uma terça-feira de Copa como outra qualquer – com França, Argentina, Noruega, Senegal, Argélia, Áustria, tudo no mesmo dia 16 de junho. Que tarde!
Quatro partidas no mesmo dia. Eu, claro, lá nas rabeiras do bolão. O primeiro jogo seria França x Senegal. Bem, na estreia os favoritos sempre levam um golzinho. Meti convicto: 3 a 1 para o selecionado de Dembelê (Dembelê… Mamãe Zimba, Dembelê…)
Cravei.
Mais para a noite, a certinha campeã Argentina contra a inofensiva Argélia. Três a coco, claro, anotei, ainda sem saber que seriam três gols do homem.
Por fim, quase madruga, Áustria x Jordânia, uma daquelas peladas sórdidas cuja complexidade fazia Nelson Rodrigues babar – e eu também babei, no travesseiro. Pus outro 3 a 1. Na mosca.
Qual seria a possibilidade, calcule comigo, de algum ser humano no planeta cravar quatro resultados em quatro, ainda mais com os quatro jogos com vitórias por três gols? Hein, seu Tristão Garcia?
Pois só sei que foi assim. Ou quase.
Pois houve, ainda, um certo Iraque x Noruega. Aquele Iraque x Noruega da desgraça.
De tarde em casa, fiquei a espiar o jogo, direeeeto de Boston, amigo. O placar foi aberto antes dos 30 por, ele mesmo, Haaland. O primeiro gol do Grande Dragão Branco em Copas do Mundo. De carrinho, com o pezão esquerdo.
Faltava o Iraque ajudar, já que eu metera, de novo, 1 x 3. Pois é, não estava muito criativo no dia. Seriam os craques do mundo árabe capazes?
Sim! Sim! Aymen Hussein, após um interrogatório básico de sete horas ao chegar aos EUA, empatou numa bela cabeçada, aos 38. Grande Hussein.
Como previsto, no fim da primeira etapa, o Iraque atrasou mal e Haaland estava lá, de novo, para estufar a rede e andar marrudão, sem comemorar, como se estivesse entrando numa das cervejarias de Boston.
Tudo fluía para a glória: 2 a 1 para a Noruega. Faltava um. Um golzinho, para pegar a ponta do bolão. Um gol para a cravada de todas as cravadas.
A rodada perfeita, 100%. O pitaco eterno. Fama. Fortuna. Todos iriam ouvir falar do oráculo da Copa 2026, o ser humano entre bilhões que acertou os placares mais improváveis. Viriam os pedidos de entrevistas: Como você fez isso? Usou algum computador? Você tem algum superpoder ou só é bonitão mesmo? Propostas. Estágio na empresa da Mãe Diná. Comerciais de Bets. Viagens para Ibiza com Ronaldo. Convite para trabalhar na Cazé TV, depois do meio-dia. Assinatura do contrato onde? No barco do Vini Junior, claro, depois de bebericar um Winston. O meu sem azeitona, Vini!
Segundo tempo, e os iraquianos perdendo gols. A Dona Sorte estava ao meu lado. O escrete do técnico Ståle Solbakken logo faria valer o famoso lema norueguês “de som ikke handler, får ta konsekvensene”. Em tupi: quem não faz, leva.
Bola pelo alto. Um becão viking, de uns 3m80cm, testou. Gooool. Aos 30 do segundo tempo, o gol decisivo.
Ninguém queria mais nada, muito menos eu. A partida se arrastava, e quando o árbitro deu os seis de acréscimo, fora um chute na rede pelo lado de fora, nada mais acontecia.
Aos 51 do segundo tempo, eu suava. Em campo, os jogadores pareciam desinteressados:
– Viu aí? A bola. Na sua frente.
– Que bola? Ah. Não, valeu. Tu decorou aquele lance da remada?
Fim do tempo regulamentar, o árbitro com o apito na boca. Para passar o tempo, a Noruega chutou uma falta na área. Um chute longe do gol. Haaland, de cabeça, deu um totó para a pequena área, fácil para o goleiro Jalal. Apita, patife!
Mas ele não apitou. A bola foi descaindo, fugiu da mão de Jalal feito borboleta, bateu no ombro de um iraquiano, e encontrou quem? O peitão de Hussein, que voltara para ajudar a defesa. Gol contra. Piiiii, soprou enfim o animal: 4 a 1 para a Noruega.
Por que, Hussein? O que eu te fiz?
Perto da final da Copa, sigo com alguma chance no bolão, lamentando aqueles pontos. E o Cazé ainda não ligou. Por que o futebol é assim?
Diante das inúmeras perguntas cabeludas dessa Copa do Mundo de 2026, ao menos pude responder esta. Quem destruiu minha glória, meus sonhos, ao arrasar meu bolão naquela terça?
Hussein. Na pequena área. Com o castiçal. Digo, com o mamilo direito.
