Arbitragem: a credibilidade que pode gerar mais valor ao futebol brasileiro

Redação

setembro 15, 2026

Por Luís Fernando Pessôa

Depois de um passado marcado por crises de credibilidade na arbitragem, a CBF deu um passo recentemente que parecia impensável: criou uma diretoria própria e focada na arbitragem, seguindo o modelo recomendado pela própria FIFA. Não se trata apenas de uma mudança de organograma. É a sinalização de que o Brasil, enfim, começa a tratar a arbitragem como o que ela é: uma atividade de alta performance, decisiva para a credibilidade do espetáculo e para criar valor econômico de uma indústria que movimenta direitos de transmissão, patrocínios, bilheteria e programas de sócio-torcedor.

Com um orçamento robusto previsto até 2027, destinado a tecnologias como o VAR, o impedimento semiautomático e, eventualmente, a RefCam, câmera acoplada à cabeça do árbitro, já utilizada na Europa e no Mundial de Clubes, a CBF também busca principalmente profissionalizar a equipe, tanto em campo como na gestão. São 72 árbitros, aproximadamente, de elite, onde será necessário fazer  uma revisão de modelo salarial, possibilidade de bônus por desempenho e perspectiva de dedicação exclusiva.

O ganho, se a promessa se cumprir, será para todo o ecossistema. Capacitação contínua, acompanhamento multidisciplinar e critérios objetivos de avaliação tendem a formar profissionais mais preparados para tomar decisões sob pressão. A tecnologia, quando bem aplicada, reduz erros objetivos, mas não substitui o julgamento humano.

Nenhum investimento em equipamentos, porém, resolve tudo sozinho. Por isso, a pergunta que paira no momento: não é apenas se a CBF vai gastar bem o dinheiro ou se utilizará a tecnologia para que elimine graves problemas estruturais do passado. Profissionalizar, capacitar, saber comunicar e blindar a decisão do árbitro contra interferências externas tem que ser a essência para uma nova cultura na arbitragem brasileira.

Trata-se de uma iniciativa que merece reconhecimento, pela dedicação e coragem, porque aponta na direção certa depois de anos de imobilismo. O futebol brasileiro não pode competir no mercado internacional carregando estruturas do passado. O exemplo de ligas que já profissionalizaram sua arbitragem, a Premier League é a referência mais óbvia, mostrando que esse caminho pode funcionar quando sustentado por metas, indicadores e transparência permanente. Como não pode ser uma ação isolada e de curto tempo na implantação e gestão das iniciativas apontadas, os resultados também chegarão com tempo.

Quando a CBF fortalece a qualidade de todo ecossistema, principalmente, de quem pode se envolver nas melhorias das aplicações das regras, fortalece o próprio jogo. Logo, ao proteger a credibilidade da arbitragem, protege o futuro da indústria.

Resta agora a parte mais difícil, que nenhum investimento financeiro garante sozinho: transformar investimento em cultura, e, cultura em confiança duradoura e percebida por todos. Com certeza, estamos no caminho certo.