Carta aberta para Neymar…

Redação

julho 6, 2026

Por Patrick Lopes

Talvez este texto nunca chegue até você. E tudo bem. Seria muita pretensão da minha parte imaginar isso.

Aliás, “pretensão” é uma palavra que marcou a minha vida e a da minha família. Meu pai, que tentou o estrelato no futebol, também conviveu com ela. Certa vez, em São Januário, ao arriscar um chute contra o Vasco, ouviu o narrador dizer: “Que pretensão, Eduardo…”

Mal sabia ele que sempre fomos pretensiosos demais. Nossa família sempre sonhou alto. O sonho dele não se realizou. E, de certa forma, infelizmente, o seu também não.

Foi justamente no MetLife Stadium que você começou a escrever sua história. Em 2011, na estreia pela maior Seleção da história do futebol, marcou de cabeça contra os Estados Unidos. Naquele momento, você não fazia ideia do que o futuro reservava.

Recordes. Títulos. Lesões. Frustrações. Glórias. Era impossível prever tudo o que aconteceria. Mas havia uma certeza: o Brasil depositava em você uma expectativa gigantesca.

Em 2014, veio sua primeira Copa do Mundo. Jogando em casa, carregando um país inteiro nas costas e, ao mesmo tempo, um elenco que estava abaixo do seu nível técnico. Em muitos momentos, parecia que você enfrentava vinte adversários sozinho.

Por sorte, a lesão não encerrou sua carreira. E, de certa forma, também o poupou de viver o traumático 7 a 1 dentro de campo. Ainda assim, já era possível perceber um padrão: você precisava de ajuda. E ela nunca parecia chegar.

Em 2018, talvez tenha vivido o auge da carreira. Você brilhava na Europa, era uma das maiores estrelas do futebol mundial e chegava ao Mundial vivendo um ciclo praticamente perfeito.

Então veio outra lesão.

Mais uma vez, ela impediu que você disputasse uma Copa do Mundo inteira em plenas condições físicas. Talvez fosse muita pretensão desejar apenas trinta dias saudável, cercado por companheiros capazes de dividir o peso da responsabilidade.

Parecia que era.

Em 2022, o cenário era diferente. A Seleção chegava mais madura, cercada de jovens talentos e com um ciclo mais consistente. Ainda assim, lá estava ela outra vez: a pretensão.

A expectativa era enorme. E, novamente, uma lesão apareceu no caminho. Ela tirou você de parte da competição. Quando voltou, mais uma vez você clamava por ajuda.

E, mais uma vez, ela não veio.

Chegamos a 2026.

A última dança.

Depois de quinze anos vestindo a camisa da Seleção Brasileira, acredito que você tenha sido um dos poucos craques da história do Brasil que jamais teve a oportunidade de dividir verdadeiramente o peso da responsabilidade.

Sempre foi você.

E quase sempre, somente você.

Nesta Copa, tudo parecia diferente. Você começou no banco, sem minutos em campo, enquanto o Brasil avançava, ainda que sem convencer. Até que o destino levou todos novamente ao MetLife.

O mesmo estádio da sua estreia.

O mesmo estádio escolhido para receber a final da Copa do Mundo.

Era impossível não imaginar que sua história pudesse terminar exatamente onde havia começado: disputando uma final de Mundial no palco da sua estreia pela Seleção.

Mas o futebol nem sempre escreve os roteiros que esperamos.

Veio a eliminação nas oitavas de final. A pior campanha brasileira desde 1990. E você deixou esta Copa com menos de noventa minutos disputados.

Não sei se era pretensão minha ou sua acreditar que, desta vez, haveria alguém capaz de dividir esse peso. Ou, quem sabe, de carregar você.

Assim como você carregou a Seleção durante tantos anos.

Chega ao fim um ciclo, ídolo.

Escrevo este texto com tristeza, mas também com esperança. A esperança, ou talvez a pretensão, de voltar a ver a Seleção Brasileira campeã do mundo.

Tenho certeza de que você também deseja isso.

Só que, desta vez, do outro lado.

Um lugar ao qual não estamos acostumados a ver você, porque durante tantos anos foi você quem nos salvou. E, muitas vezes, sem ter alguém ao seu lado para dividir essa missão.

Mais um gênio do futebol se despede da Seleção sem conquistar uma Copa do Mundo.

Mais triste do que isso talvez seja saber que você sequer teve a oportunidade de disputar uma final.

Hoje escrevo estas palavras ainda movido pela pretensão de acreditar que o futebol voltará a sorrir para o Brasil.

Só que, desta vez, com você fora das quatro linhas.

Obrigado por tudo, Neymar.