Em 180 minutos, Seleção marcou cinco gols, sofreu três e apresentou poucos momentos de futebol convincente; desempenho amplia questionamentos sobre geração e trabalho de Carlo Ancelotti
Talvez a pior derrota do Brasil não seja perder uma Copa do Mundo. Seja, aos poucos, deixar de reconhecer a própria Seleção.
Foram 180 minutos contra a Austrália. O Brasil marcou cinco gols e sofreu três. Os números ofensivos podem até oferecer algum conforto, mas o desempenho deixa uma sensação bem diferente. Se houve 15 minutos de futebol realmente digno das expectativas que cercam a camisa amarela, já seria uma avaliação generosa.
O problema não está apenas no placar. Está no que a Seleção apresentou.
Um futebol burocrático, engessado e previsível. A bola circula, os jogadores correm e a organização aparece. No entanto, falta aquilo que durante décadas transformou o Brasil em referência: invenção.
E então surge a pergunta inevitável: de quem é a responsabilidade?

CBF, jogadores ou Ancelotti?
A resposta provavelmente não cabe em um único nome.
A CBF carrega sua parcela de responsabilidade pelo caminho percorrido pela Seleção nos últimos ciclos. Ao mesmo tempo, a atual geração chegou cercada por enorme expectativa justamente porque reúne jogadores em alguns dos principais clubes do futebol europeu.
Vini Jr., Raphinha, Endrick, Estêvão e Bruno Guimarães são alguns dos nomes que alimentam a esperança de um novo ciclo vencedor.
Entretanto, existe uma diferença entre atuar em grandes clubes e assumir o protagonismo que a camisa da Seleção Brasileira historicamente exige.
É nesse ponto que Carlo Ancelotti também entra na discussão.
O treinador chegou ao Brasil sustentado por um currículo colossal. São cinco títulos de Champions League e uma trajetória que dispensa apresentações.
Porém, o futebol apresentado até aqui parece distante daquilo que o brasileiro aprendeu a identificar com sua Seleção.
Linhas organizadas, disciplina, prudência e controle fazem parte da construção. Tudo correto. Tudo organizado. Mas onde está a capacidade de surpreender?

O Brasil nos acostumou mal
Comparar gerações diferentes sempre será injusto. Ainda assim, o próprio passado brasileiro torna praticamente impossível fugir completamente desse exercício.
O Brasil já teve Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e Kaká. Antes deles, Zico, Sócrates e Falcão. Mais atrás, Pelé, Garrincha, Gérson, Rivelino e Tostão.
Durante muito tempo, a discussão brasileira era sobre quais craques deveriam começar jogando e quais precisariam ficar no banco.
Hoje, a pergunta é outra: quantos craques realmente temos?
Não se trata de exigir que Vini Jr. seja Ronaldo, que Endrick seja Romário ou que Estêvão carregue imediatamente o peso de nomes que construíram suas histórias durante anos.
O problema é que o Brasil estabeleceu um padrão tão alto que qualquer geração inevitavelmente precisa conviver com ele.
A camisa ainda pesa?
Os três gols sofridos diante da Austrália são preocupantes. Mas talvez eles nem sejam o principal sinal de alerta.
Assusta mais olhar para a Seleção, para o futebol apresentado e para o futuro sem reconhecer com facilidade o país que construiu parte de sua identidade através da bola.
Isso não significa defender nostalgia como modelo tático. O futebol mudou. Os adversários evoluíram. As exigências físicas e estratégicas são outras.
O Brasil também precisa mudar.
Porém, modernizar não deveria significar abandonar aquilo que tornou o futebol brasileiro diferente. Organização e criatividade não precisam ser conceitos opostos.
Esse talvez seja um dos principais desafios de Ancelotti: construir uma equipe moderna sem transformar a Seleção em apenas mais uma equipe organizada.
O Brasil chegará à Copa?
Ainda existe tempo. Ancelotti tem currículo suficiente para compreender problemas, testar alternativas e encontrar respostas.
Da mesma forma, jogadores que apresentam alto nível por seus clubes ainda podem transformar esse desempenho em protagonismo com a camisa amarela.
Mas os 180 minutos diante da Austrália deixam um aviso.
O Brasil precisa encontrar mais do que uma formação, uma escalação ou um sistema tático.
Precisa encontrar novamente uma identidade.
A Copa vai chegar.
A dúvida, cada vez mais incômoda, é se o Brasil chegará com ela.
