Técnico com cinco títulos de Champions League encara o desafio de encontrar soluções para uma geração que não permite ao Brasil simplesmente reproduzir modelos do passado
O Brasil de Ancelotti não precisa tentar ser a Seleção de 1970. Precisa descobrir qual Seleção consegue ser em 2030.
O futebol brasileiro ainda ocupa um espaço especial no imaginário de quem construiu sua história fora do país. Guardiola já falou sobre o impacto da Seleção de 1970 em sua relação com o jogo. Klopp também tratou o futebol brasileiro com reverência. A mística permanece mesmo quando o desempenho dentro de campo já não acompanha o peso da camisa.
Talvez essa própria dimensão histórica ajude a explicar o tamanho do desafio aceito por Carlo Ancelotti. Um treinador com cinco títulos de Champions League assumiu a Seleção Brasileira e, justamente por seu currículo, carrega a expectativa de encontrar respostas.
O problema começa quando o passado passa de inspiração a parâmetro.

O Brasil de hoje não é o Brasil de 1970
Não estamos em 1970. Tampouco em 1982, 1986, 1994, 1998, 2002 ou 2006.
Durante diferentes períodos de sua história, o Brasil reuniu tantas opções de alto nível que parte do trabalho dos treinadores consistia em encontrar espaço para seus principais jogadores. A Seleção de 1970 podia atuar no histórico 4-2-4 porque tinha as peças necessárias para sustentar aquela proposta.
A geração atual apresenta outra realidade.
Ancelotti tem utilizado uma estrutura semelhante, mas não dispõe de jogadores equivalentes aos responsáveis por transformar aquele sistema em referência histórica.
Raphinha não é Pelé. Bruno Guimarães não é Clodoaldo. Vini Jr. não é Rivelino. Endrick não é Jairzinho. Rayan não é Tostão. E Carlo Ancelotti não é Zagallo.
Isso não representa demérito para nenhum deles. Apenas evidencia que épocas, características e contextos são diferentes.

Ancelotti precisa potencializar a geração disponível
A atual geração brasileira convive com enorme expectativa criada pelo desempenho de seus principais nomes no futebol europeu. Na Seleção, porém, esse rendimento coletivo ainda não atingiu a mesma dimensão.
Além disso, o Brasil já não apresenta a superioridade técnica individual que, em outras épocas, permitia acomodar diversos jogadores ofensivos sem comprometer tanto o equilíbrio da equipe.
Por isso, a discussão não deveria se limitar à quantidade de atacantes escalados. O ponto central está na capacidade de construir um sistema que potencialize as características disponíveis.
É justamente nesse cenário que o currículo de Ancelotti ganha ainda mais importância.
O treinador conquistou cinco vezes a Champions League. Se o Brasil não possui uma geração comparável às mais brilhantes de sua história, caberá ao italiano encontrar uma maneira diferente de tornar o conjunto competitivo.
Ancelotti não foi contratado para esperar aparecer outro Pelé. Foi chamado para encontrar soluções com os jogadores que estão disponíveis.
O passado pode inspirar, mas não pode aprisionar
A Seleção de 1970 continuará sendo uma referência. O problema surge quando a memória de um dos maiores times da história passa a influenciar expectativas incompatíveis com o futebol atual.
O Brasil precisa compreender as características da geração que possui, corrigir suas limitações e construir uma identidade própria.
A camisa seguirá carregando cinco estrelas e décadas de história. Entretanto, nenhuma delas entra em campo.
Talvez seja a hora de Ancelotti esquecer o 4-2-4 de 1970.
E começar a construir a Seleção Brasileira de 2030.
