PATRIMÔNIO HISTÓRICO DO ESTADO E MAIS DE UM SÉCULO DE HISTÓRIA: OS LEGADOS DO AMERICA FOOTBALL CLUB

Redação

outubro 29, 2026

Pioneirismos, conquistas e histórias de torcedores ajudam a contar a trajetória do clube que atravessa gerações e é parte da memória esportiva nacional

Por Larissa Bispo, da Agência Alerj

Quatro gerações de uma mesma família dividindo o amor pelo mesmo clube. Hino cantado desde a infância e lembranças que resistem ao tempo. A história do America Football Club é feita de vínculos e pioneirismos que ajudam a explicar por que o clube, fundado em 1904, foi declarado patrimônio histórico, cultural e imaterial do estado pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). E, se o senso comum diz que o America é o segundo time de muita gente, para quem veste a camisa rubra essa paixão é única. “AFC, pra mim, não é somente America Football Club, mas ‘Amor Fora do Comum’. America é resistência e amor”, declara Marcelo Castilho, torcedor desde criança.

Não é de hoje que a paixão rubra acompanha a família de Marcelo, de 53 anos. Ele conta que cresceu acompanhando os jogos com o pai e repetiu o gesto com as próprias filhas. “Sou pai, filho e neto de torcedores rubros. Meu pai me levava aos jogos desde quando eu ainda era pequeno. Inclusive, chegamos a ir em caravanas assistir aos jogos fora do Rio. Eu fiz o mesmo com minhas filhas, ou seja, são quatro gerações dividindo a mesma paixão”, relata.

Quando o assunto é America, são diversas recordações que Marcelo guarda. Mas existe uma lembrança que ocupa um lugar especial: a final do Torneio dos Campeões de 1982. “Foi em 12 de junho, no Dia dos Namorados. E eu vi minha paixão ganhar seu primeiro título nacional. Eu e meu pai choramos após o gol do Gilson Gênio quase no fim da prorrogação. Depois, voltamos no nosso fusquinha branco com 31 adesivos do America colados e a mão na buzina no caminho do Maracanã até em casa”, narra Marcelo.

Se a paixão de Marcelo está ligada às lembranças vividas ao lado do pai, a de Pedro Estellita Lins começou a ganhar forma ainda na escola. Aos 43 anos, o torcedor mantém vivo esse vínculo com o clube ao compartilhar na internet conteúdos sobre o America como forma de democratizar o acesso à história e às informações sobre a instituição.

“Na escola, tínhamos o coral e, nele, cantávamos os hinos do Flamengo, Fluminense e America, mas eu me recusava a cantar os outros dois”, brinca. “O hino do America é naturalmente bonito e encanta. Eu não tive uma vida de sócio, mas sou vizinho das raízes do clube, então minha mãe me levava em vários eventos lá dentro”, conta Pedro, morador da Tijuca.

Por carregar essa história desde a infância que Pedro vê no reconhecimento muito mais do que um simbolismo. Para ele, o título de patrimônio é uma forma de colocar um peso real sobre o clube. “O America vem desde 1904. Então, imagina o Rio de Janeiro naquele ano e como é hoje, e o que o clube viu e viveu nesse mais de um século e o que contribuiu como parte da cultura. Ser patrimônio do estado do Rio também ajuda em projetos que podem vir a capitalizar um clube, que já foi campeão estadual, nacional e representante do Brasil lá fora”, explica.

O America na história do futebol

A inseparável identidade rubra do America nem sempre foi assim. Inicialmente, o clube vestia preto e branco e só adotou o vermelho e branco, que tornaria sua marca, em 1908. O responsável pela mudança foi João Evangelista Belfort Duarte, personagem histórico na construção da identidade do clube. A alteração foi inspirada no uniforme do Mackenzie College, de São Paulo.

A contribuição de Belfort Duarte para o futebol ultrapassa as cores do America. O ex-capitão rubro é considerado um dos precursores da tradicional saudação às torcidas antes das partidas. O compromisso com a lealdade dentro dos campos também marcou a trajetória do ex-jogador e fez dele uma referência histórica no fair play. Belfort é lembrado por reconhecer infrações que não eram percebidas pela arbitragem. Sua ética inspirou, décadas depois, a criação do Prêmio Belfort Duarte, que reconhece jogadores pela disciplina em campo. Entre os jogadores do America agraciados com o prêmio está Alex Kamianecky, zagueiro do clube nas décadas de 1960 e 1970. O reconhecimento chama a atenção por ser pouco comum entre atletas que atuam na defesa.

Em 1951, o America vestiu a camisa de um país inteiro. No Estádio Centenário, no Uruguai, o clube venceu o Peñarol, equipe uruguaia que reunia jogadores campeões da Copa do Mundo de 1950, no episódio que ficou conhecido como ‘Maracanazo’. “Na volta ao Brasil, uma multidão esperava o time no Aeroporto do Galeão. O America é o verdadeiro vingador do futebol”, opina Marcelo Castilho.

A história do America também se cruza com a da Seleção Brasileira. O meio-campista Hermógenes e o goleiro Joel vestiram a amarelinha e fizeram parte da primeira equipe brasileira a disputar uma Copa do Mundo, em 1930. Entre os grandes ídolos, também estão Edu Coimbra e Luisinho Lemos, maiores artilheiros da equipe rubra. Foi também no America que Mário Jorge Lobo Zagallo, o Velho Lobo, iniciou sua trajetória no futebol, nas categorias de base do Mecão.

Outro pioneirismo começa no próprio nome: o clube foi o primeiro do futebol do mundo a se chamar America, uma escolha que homenageia o novo continente. Anos depois, inspirou todos os outros a adotarem o nome. “Quando se fala America, o nosso é o primeiro de todos. É a musa inspiradora para todos os Americas que vieram depois”, explica Pedro Estellita Lins.

A relação dos torcedores com o America se manifesta de diferentes formas. Ruth Araújo Rodrigues, a Tia Ruth, se tornou símbolo do America ao distribuir flores aos adversários em um gesto de paz e respeito. Essa paixão também atravessa outra geração e chega a nomes conhecidos, como o do jornalista e apresentador Alex Escobar. Torcedor declarado do America, ele escolheu o clube ainda na infância, depois de assistir America x Botafogo com o pai.

Para Marcelo Castilho, os torcedores são a verdadeira razão para o clube continuar existindo, apesar das dificuldades vividas nas últimas décadas. “Como diz o hino: ‘Até morrer’”, completa ele.