Aline Bordalo: “Eu vim aqui te ver!”! Crônica de uma botafoguense que presenciou um momento histórico nos EUA

Redação

junho 25, 2025

Assim que houve o sorteio do Mundial de Clubes e o Botafogo caiu no grupo do PSG, pensei: “Vai ser histórico”. E o time francês ainda nem tinha sido campeão da Champions.

Depois que isso aconteceu, a importância e a curiosidade de assistir a este confronto ganhou uma proporção gigantesca. Meu subconsciente me dizia que eu jamais poderia perder aquele jogo.

Escolhi assistir à final da Libertadores no Rio de Janeiro, no Niltão, porque eu queria muito ir a General Severiano logo após a conquista, assim como fiz em 95. Mas confesso que me arrependi de não ter estado “in loco” num momento tão marcante para nós, botafoguenses.

Com este arrependimento na cabeça e a vontade de estar na atmosfera daquele jogo único, decidi que valeria a pena um esforço financeiro. Fiquei algumas semanas procurando promoções de passagens aéreas – em vão – e resolvi comprar assim mesmo. Além de assistir ao jogo, visitaria pela primeira vez o lugar onde minha prima mora há mais de 30 anos. Sim, ela me convida para conhecer San Diego há três décadas e precisou que o Botafogo fosse jogar lá para eu finalmente viajar.

E lá fui eu, vestida de Botafogo, pegar o avião para Los Angeles. Para mim, a experiência já começou ali, com dezenas de irmãos de camisa no voo, que chegaram a soltar um “Fogo!” quando aterrissamos em terras norte-americanas.

A partir dali, o que vi foram cenas aleatórias. Tinha botafoguense por todo lado – atravessando a rua, visitando pontos turísticos…encontrei gente na Calçada da Fama, no Píer Santa Mônica, e principalmente na praia de Venice, que se transformou no bairro de Botafogo durante duas semanas. Foi lá que a Botafogo House ficou localizada, uma casa extraordinária que virou uma extensão do Niltão, com shows de pagode, músicas da torcida, chopp e uma decoração extremamente “instagramável” para botafoguenses. Era difícil acreditar que estávamos nos Estados Unidos.

No dia do jogo, partimos cedo para o estádio, que fica em Pasadena, outro município, a mais ou menos uma hora de distância de Los Angeles. Quando vi o Rose Bowl se aproximando, tanta coisa passou pela minha cabeça…há poucos anos estava indo ver jogo da série B e naquele momento me encontrava no estádio onde o Brasil conquistou o tetra para ver meu time enfrentar o campeão da Champions! Parecia um sonho, mas não era.

Não vou mentir que achava o empate um excelente resultado, diante de todo o contexto. Aliás, este era o sentimento de nove em cada dez torcedores. Menos para o filho do meu primo, Dante, de oito anos, que também viajou para ver o Botafogo, e cravou o placar – 1 a 0 para nós.
Otimismo de criança, pensei…

Ficamos no setor atrás do gol de ataque do Botafogo, junto com a torcida, que não parou de cantar um minuto sequer. Debaixo de sol forte, assim como no Niltão, apresentamos todo o nosso repertório musical, que não é pequeno. Vimos os jogadores entrarem um a um, como nos jogos da NBA, e gritamos o nome de todos, como fazemos sempre.

Quando o jogo começou, a ficha foi caindo. Era realidade, estávamos em campo para impedir que os atacantes mais badalados da temporada balançassem as redes. E à medida que os minutos iam passando, isso parecia ser menos impossível. Sim, jogávamos bem! Eles estavam encontrando dificuldade para achar o caminho do gol, graças aos NOSSOS jogadores. O zero a zero aos 35 minutos do primeiro tempo já era um feito!

Até que, aos 36, do nada vi Igor Jesus avançando, avançando e chutando na nossa direção! Não era possível! O primeiro gol do jogo foi nosso! Naquele minuto senti algo parecido com o gol da final da Libertadores, quando marcamos com menos um em campo. Foi lindo ver todos se abraçando, pulando, que energia incrível!

Conseguimos segurar o placar até o intervalo. O desejo de que o jogo terminasse naquele momento só não era maior do que a vontade de ver o Botafogo continuar acabando com os planos da grande sensação do Mundial.

É claro que agora o pensamento era diferente, pois sentíamos que podíamos vencer e, quem sabe, até fazer mais um. Foi quase, pois tivemos chances. E a cantoria não parou; pelo contrário, foi aumentando a cada defesa de John, a cada tirada de bola de Barboza para a lateral! O “uh uh uh” ecoava a cada lance de bola roubada.

E assim foi, até os cinquenta minutos do segundo tempo. Quando o árbitro levantou as mãos e apitou o fim do jogo eu senti o mesmo que naquele 30 de novembro de 2024. Desta vez, “in loco”! As lágrimas escorreram pelo meu rosto, o coração disparou, e a certeza de que tudo valeu a pena para viver aquele momento ficou clara.

Minha prima Ilana, que nunca tinha testemunhado aquela devoção por um time, também chorou. Não imaginava que o futebol pudesse proporcionar tamanha alegria.

O pequeno Dante nos deu uma lição: jamais acredite que é impossível. Jamais duvide de um milagre. Sabedoria infantil. Sair do estádio com minha torcida cantando “é tempo de alegria”, subindo na estátua de um jogador de baseball sem dar bola para os seguranças, são cenas que vou guardar nas minhas mais lindas memórias. Queria congelar aquele momento e guardá-lo numa caixinha. Obrigada, Botafogo, obrigada a todos os jogadores que tornaram isso possível e também ao nosso técnico Renato Paiva.

Eu vim aqui te ver e tudo valeu a pena. O campeão da Libertadores ganhou do campeão da Champions. Esse duelo valia um troféu. E uma estátua de Igor Jesus merecia ser colocada ali.