Por Marcelo Dunlop
Todos conhecem a letra há mais de 81 anos. Por mais curioso que seja, o atual hino oficial do Flamengo foi criado em 1943, cantado pela primeira vez (num teatro!) em 1944 e comercializado pela Odeon a partir de 1945, nas melhores lojas de disco da cidade. Ainda assim, até hoje ninguém compreendeu com precisão o sentido das estrofes do imenso, do gênio, do sacana Lamartine Babo.
É, de fato, uma letra simples na aparência, vestida por uma melodia que arrebata, me maltrata. A pegadinha está logo no início, com a malemolência e picardia próprias das marchinhas – a música, afinal, virou mania no carnaval de 1944. Tente ler sem cantarolar, atento a cada expressão:
“Uma vez Flamengo
Sempre Flamengo
Flamengo sempre eu hei de ser…”
Beleza, mais claro que isso só placa de trânsito. Que, aliás, ninguém no Rio mais segue, bando de felas. Sigamos:
“É meu maior prazer
Vê-lo brilhar
Seja na terra
Seja no mar…”

É aqui que o bicho pega. De 1945 a 2025, por 80 anos, todos supomos que o binômio terra-mar fizesse alusão ao Flamengo completo, capaz de vencer em qualquer terreno, em qualquer esporte. Qual nada. Era pura metáfora. Sim, a terra como um local estável, pé fincado no chão, seguro. O mar, seu oposto, como um um espaço desordenado, de imensidão e mistério. Na terra firme, o Flamengo vencedor, papão, aterrorizante. No mar revolto, o Flamengo que se debate, toma ondas cabulosas na cabeça, engole água e, na praia, todos se atiram para tentar ajudar.
O Clube de Regatas do Flamengo nasceu em águas turbulentas, e de tempos em tempos, precisa voltar a elas para voltar mais forte. O segredo? Respirar. Tocar os pés no fundo para dar impulso. E nadar na direção certa. Como fazemos desde 1943. Ou desde 1895.
(Marcelo Dunlop)

