Durante muito tempo, as categorias de base foram tratadas pelos clubes apenas como um departamento esportivo, um investimento necessário para formar atletas e alimentar o futebol profissional. Essa visão precisa mudar: a base é também uma unidade estratégica de geração de valor, redução de custos e formação de patrimônio. E os números, tanto na Europa quanto no Brasil, confirmam a tese.
Segundo o Observatório do Futebol (CIES), o Benfica lidera o ranking mundial da última década em vendas de jogadores formados no Seixal, à frente de Ajax, Chelsea e Lyon. Somando Benfica, Sporting e FC Porto, a formação dos três grandes portugueses gerou mais de €1,1 bilhão desde 2014/15, colocando a Liga Portugal como a competição com melhor saldo de transferências do mundo no período. É a prova concreta de que formar bem não é apenas um projeto esportivo: é um modelo de negócio.
O movimento, porém, não é exclusividade europeia. No Brasil, a base também vem se consolidando como uma das operações mais rentáveis do futebol nacional. De acordo com o Relatório Convocados 2026, os clubes da Série A movimentaram R$ 14,3 bilhões em receitas em 2025, crescimento de 32% sobre o ano anterior e as transferências de atletas foram o grande motor desse resultado, somando R$ 3,9 bilhões, alta de 63% em relação a 2024 e o maior valor já registrado pelo setor, respondendo por cerca de 27% de toda a receita da elite do futebol brasileiro.
O Palmeiras é hoje a referência nacional nesse modelo. O clube arrecadou cerca de R$ 1,7 bilhão com a venda de jogadores da base nos últimos cinco anos e mantém direitos econômicos sobre mais de 180 atletas formados na Academia que sequer chegaram a atuar no time profissionaluma verdadeira fábrica de ativos em funcionamento mesmo fora do elenco principal. Só em 2025, cinco jogadores formados na base renderam cerca de R$ 599 milhões ao clube. No balanço, a venda de atletas somou R$ 602 milhões, ajudando o clube a fechar 2025 com receita bruta recorde de R$ 1,78 bilhão e superávit de R$ 292 milhões.
O São Paulo é outro caso emblemático dessa virada de chave. Em 2025, o clube bateu recorde histórico de faturamento, superando pela primeira vez a marca de R$ 1 bilhão em receita crescimento de 47% sobre 2024, revertendo um déficit de R$ 287 milhões para um superávit de R$ 56,8 milhões. As vendas de jogadores formados no Centro de Formação de Atletas de Cotia foram decisivas: R$ 283,7 milhões arrecadados, mais que o triplo dos R$ 93,3 milhões obtidos em 2024. Para 2026, o próprio clube já projeta que cerca de 40% da receita orçada virá novamente de vendas de atletas sinal de que a base deixou de ser um resultado eventual para se tornar parte estrutural do planejamento financeiro.
A diferença de escala entre os dois clubes brasileiros também revela o quanto esse modelo ainda pode se aprofundar com a maturidade do modelo palmeirense quanto para o potencial de crescimento de outros clubes brasileiros nessa frente.
Essa lógica ganha ainda mais força quando incorporada ao planejamento do elenco profissional. Uma meta estratégica de manter cerca de 40% do plantel formado internamente pode transformar a estrutura esportiva e financeira de um clube: em um elenco de 30 atletas, seriam 12 jogadores da própria base, com o mercado usado para complementar experiência, liderança e talentos específicos. O ganho não está apenas na economia com contratações, mas em manter o ativo dentro de casa por mais tempo, permitindo que o atleta conquiste títulos, ganhe exposição e se valorize antes de uma eventual transferência por valores muito acima do praticado por promessas ainda não testadas.
A grande mudança de paradigma é entender que o melhor momento para monetizar um jogador nem sempre é o primeiro momento em que surge uma proposta. Vender cedo garante receita imediata, mas manter o atleta pode gerar performance, títulos e uma transferência futura muito mais relevante sem ignorar que reter demais também tem riscos, como lesão, perda de forma ou insatisfação do jogador. Assim, a formação de atletas passa a integrar a estratégia de orçamento, planejamento de elenco e gestão patrimonial do clube.
De Portugal ao Brasil, a conclusão é a mesma: a base deixa de ser um centro de custo e passa a funcionar como uma fábrica de ativos, onde quanto melhor o clube forma, mais tempo consegue reter, mais valor consegue criar e maior pode ser a monetização no momento certo.
